quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Bola (laranja) de cristal

Kobe Bryant, do Lakers, é a aposta do colunista para MVP da temporada (foto: NBA)

Por Marcelo Monteiro

A temporada da NBA começou nesta terça-feira com três duelos entre equipes do Oeste. Sem surpresas. O San Antonio contou com 24 pontos e 13 rebotes de Tim Duncan e mais boas atuações de Tony Parker e Manu Ginóbili para superar o Portland no Texas. Em Los Angeles, o Lakers mostrou o que deve ser sua sina por mais um campeonato: ser um time de um jogador só. Kobe Bryant fez 45 dos 93 pontos da equipe, mas o time amarelo perdeu em casa para o Houston Rockets por dois pontos. E o Utah, atual vice-campeão da Conferência, passou sem dificuldades pelo Golden State Warriors.

Como prometido, seguem as previsões deste humilde colunista para a temporada. Acha que está tudo errado? Que este escriba não sabe rigorosamente nada sobre NBA? A caixinha de comentários está liberada. Faça valer o seu direito de se manifestar.

Conferência Leste

1) Chicago Bulls
2) Detroit Pistons
3) Boston Celtics
4) Miami Heat
5) Cleveland Cavaliers
6) New Jersey Nets
7) Orlando Magic
8) Atlanta Hawks

Final: Chicago x Detroit
Campeão: Detroit

Conferência Oeste

1) Phoenix Suns
2) San Antonio Spurs
3) Dallas Mavericks
4) Houston Rockets
5) Denver Nuggets
6) Utah Jazz
7) Los Angeles Lakers
8) Memphis Grizzlies

Final: Phoenix x San Antonio
Campeão: Phoenix

Campeão da NBA: Phoenix Suns
MVP: Kobe Bryant (Los Angeles)
Rookie: Al Horford (Atlanta)
Melhor sexto homem: Manu Ginóbili (San Antonio)
Melhor treinador: Scott Skiles (Chicago)

Marcelo Monteiro mal chega a 1,70m, mas é mortal nas bolas de três. Torcedor fanático do Atlanta Hawks, trabalhou por nove anos em sites das Organizações Globo. Hoje, empresta seus conhecimentos à Textual Assessoria. Escreve sobre basquete às quartas-feiras.

Quem vai, quem vem

Alex Rodriguez se despede do Yankees: Fenway Park pode ser o destino (foto: MLB)

Por Fernando Andrade

Os torcedores do Boston Red Sox ainda nem terminaram de comemorar o título da World Series, mas o mercado do beisebol já está bem agitado. Aliás, o mercado está agitado como há muito não se via.

No Bronx, além de ter que aturar mais uma conquista de seu maior rival, o fã do New York Yankees já começa a se preocupar com o futuro. No comando do time, Joe Girardi substitui Joe Torre. Esse anúncio surpreendeu muita gente, incluindo eu, que esperava um acerto com Don Mattingly, uma vez que já integrava o grupo de treinadores dos Yankees, como bench coach, além de ser um dos maiores ídolos da história do clube, tendo sua camisa (23) aposentada em 1997.

Girardi, como alguns irão retrucar, também tem identificação com os Yankees, onde conquistou três World Series como jogador, mas não tem tanta experiência como Manager. Na verdade, ele só trabalhou uma temporada nessa posição, em 2006, quando levou o prêmio de Melhor Técnico da Liga Nacional, à frente do Florida Marlins.

Joe Torre, ao que tudo indica, vai assumir o Los Angeles Dodgers, assumindo a vaga de Grady Little. E deve levar com ele parte dos profissionais com quem trabalhava em Nova Iorque. Mattingly, por exemplo, após ser preterido pela direção do clube nova-iorquino, já deixou claro que também deixará o Yankee Stadium e deve seguir com Torre para Los Angeles. Um dos desejos de Torre é o de poder contar com Kevin Long, hitting coach, um dos principais responsáveis pela ótima produção ofensiva dos Yankees.

Não é só entre os técnicos que a Major League Baseball está movimentada, como acontece em todo fim de temporada, muitos jogadores estão sem contrato e já começam a negociar seu futuro. Alex Rodriguez é a maior das surpresas, já que ele ainda tinha contrato em vigor, onde receberia 81 milhões de dólares por mais três anos de contrato, mas optou por encerrar antes seu acordo com os Yankees.

O provável destino de A-Rod seria o Fenway Park, já que o Boston Red Sox ainda não acertou a renovação de contrato do terceira base Mike Lowe. Rodriguez, diga-se de passagem, é um sonho antigo da diretoria do clube, para onde quase foi em Depois de tudo que foi demonstrado por Lowe nos playoffs, conquistando o título de MVP da World Series, vai ser uma burrada muito grande do time de Boston, caso deixe Lowe sair.

Outro possível destino para Rodriguez seria a Califórnia, mais precisamente Anaheim, já que o proprietário dos Angels, Art Moreno, vem ameaçando fazer um grande anúncio há algum tempo, além do desejo do técnico Mike Scioscia de contar com mais um rebatedor de potência para formar dupla com Vladimir Guerrero.

Caso Alex Rodriguez acerte com os Red Sox, pode rolar um “troca-troca” e Mike Lowe pintar no Yankee Stadium. Além dessa, mais uma troca entre times rivais pode envolver os catchers Jorge Posada e Paul Lo Duca. Apesar da forte identificação e de já ter se declarado torcedor dos Yankees, Posada teria ficado muito insatisfeito com a forma com que o clube tratou o caso de Joe Torre. Com isso, ele poderia se dirigir para o outro lado de Nova Iorque, desembarcando no Queens, com Paul Lo Duca deixando o Mets e se dirigindo para o Bronx.

Mais três nomes me chamam a atenção, entre jogadores que ficaram sem contrato. O arremessador Curt Schilling é mais um grande nome que pode deixar Boston. Depois de ter participações fundamentais nas conquistas das duas últimas WS, muitas equipes estão de olho em Schilling, especialmente os Yankees, que viram, mais uma vez, que um ataque forte não adianta de nada, se o time não tiver uma rotação à altura. Os outros dois são Barry Bonds, que, se não renovar, deve ir para algum time da liga americana, para atuar como rebatedor designado, possivelmente o Angels; e o arremessador Mariano Rivera, que acredito que vá acertar a sua renovação contratual.

***

Sobre a World Series, não há muito o que dizer. Não se pode contestar uma varrida por 4 a 0. Foi uma vitória justíssima do Boston Red Sox, que mostrou que não há mais qualquer resquício de maldição pelas bandas do Fenway Park.

Já há quem aponte o Red Sox como o novo bicho-papão do beisebol americano, o novo time a ser batido, o próximo time a ser odiado pelos torcedores concorentes.

Apesar da derrota, há de se aplaudir a campanha do Colorado Rockies. De um time desacreditado no início do ano, chegou ao título da Liga Nacional. Resta ver se Matt Holliday, Kazuo Matsui, Tod Helton e cia. conseguirão repetir a campanha desse ano ou se foi somente “fogo de palha”.

Fernando Andrade passou de fã a companheiro de transmissões de Ivan Zimmerman. Jornalista, trabalhou nas rádios Tupi, Nativa, Jovem Pan e Paradiso. É jogador, treinador e presidente da Federação Carioca de Beisebol e Softbol, e escreve sobre o esporte às quartas-feiras.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Fica para a próxima, Boston

Para colunista, trio terá de esperar mais um pouco para comemorar (foto: AP)

Por Vitor Sérgio Rodrigues

Hoje começa mais uma temporada da NBA. E depois de muitos anos, podemos dizer que o time mais tradicional da liga, o Boston Celtics, é um dos favoritos ao título. Algo que não acontecia desde o fim da década de 80. Depois de um período de quase duas décadas de reconstrução, graças a trocas infelizes, escolhas malucas no draft e contratos estapafúrdios, o gerente Danny Ainge acertou a mão e montou um trio imponente e assustador vestindo verde: Paul Pierce, Kevin Garnett e Ray Allen (na foto, respectivamente). Mas que não deve ser suficiente para levar conquistar o 17º título da NBA para a franquia.

A afirmação se baseia na história dos últimos 22 campeões da NBA. Desde a temporada 1986-1987, todos os campeões da NBA tinham ou um armador principal excelente (Detroit campeão em 89,90 e 2004) ou um super-pivô (Houston em 94 e 95, San Antonio em 99 e Lakers de 2000 a 2002). Quando não tinha os dois (Lakers em 87 e 88, San Antonio em 2003, 2005 e 2007 e Miami em 2006). A exceção que confirma a regra é o Chicago Bulls, dono de seis títulos. Mas aí não vale, pois o Bulls tinha Michael Jordan. O último time campeão sem esses dois “detalhes” foi justamente o Boston Celtics, na temporada 1985-1986, com Larry Bird fazendo chover.

Não há como fugir. Na NBA é assim. O show e as acrobacias dos alas e dos segundos armadores garantem muitos pontos. O pragmatismo dos armadores principais e dos pivôs garante títulos. E dando uma rápida olhada no elenco do Boston atual, percebe-se que, nas duas posições, o time não tem nomes capazes de levar o Celtics de volta ao topo da NBA.

O armador principal será Rajon Rondo, que entra na sua segunda temporada na liga apenas. Jogador muito rápido, oriundo da Universidade de Kentucky, Rondo ganhou mais tempo de quadra no fim da temporada passada, quando virou titular. Ele foi muito irregular, como é normal para os calouros, mas mostrou talento. Só que ainda é pouco para um time que sonha em brigar pelo título. A não ser que ele evolua imensamente, principalmente na transição e no número de desperdícios de bola, é pouco para controlar e dar o ritmo que uma equipe precisa, principalmente nos playoffs.

Como pivô, o Boston parece estar ainda pior com Kendrick Perkins. O jogador, escolhido diretamente do colegial há quatro anos, ainda não conseguiu mostrar o que dele se espera. Sua média de pontos evolui de 2,2 para 4,5 do primeiro para o quarto ano, sendo que seu tempo em quadra aumentou seis vezes. Perkins mostra sinais de talento, mas é muito estabanado, principalmente no ataque. Isso pode ser fatal para o Boston, na hora em que a dupla (ou tripla) marcação apertar em Garnett e a bola fatalmente sobrar para o pivô.

Claro está que não dava para o Boston ter cinco all-stars no time titular. Mas era melhor a equipe ter investido em um armador principal de respeito em vez de contratar Ray Allen. O ala, vindo do Seattle, pode acabar atrapalhando o rendimento de Paul Pierce (os dois vão acabar disputando espaço na quadra e alguns arremessos entre si) e na última temporada sofreu com lesões. Mas quando Ainge contratou Allen, ele não imaginava que conseguiria pescar Garnett do Minnesota...

Não ter um super-pivô pode nem ser tanto problema para o Boston na Conferência Leste, já que apenas o Miami Heat e o Orlando Magic o tem (alías, o Boston e todos os times do Leste deveriam secar o Miami para que Shaquille O’Neal continue sofrendo com lesões e/ou desmotivação, pois o Heat tem um armador excepcional e ainda um grande pivô). Mas na hora de cruzar com os rivais do Oeste, que vêm com Tim Duncan, Amare Stoudemire e Yao Ming, isso vai pesar e muito. Quem sabe no ano que vem, com uma troca para pescar um bom armador?

Vitor Sérgio Rodrigues comemorou o último título do Celtics ao som de Blitz e Menudos. Trabalhou no Jornal dos Sports, Diário Lance, por onde cobriu Atenas 2004, e Globoesporte.com. Hoje, é comentarista da TV Esporte Interativo. Escreve no Por Esporte às terças-feiras.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Uma liderança sob risco

Emerson bebe água: jejum brasileiro já dura 16 anos (foto: autosport)

Por Otto Jenkel

A Inglaterra tem todos os motivos para lamentar o resultado do GP do Brasil no domingo passado. Além de perder um título praticamente ganho de Lewis Hamilton, o antigo império desperdiçou uma grande oportunidade de se igualar ao Brasil em número de campeonatos ganhos na Fórmula 1.

O domínio brasileiro vem desde 1988, quando Ayrton Senna conquistou seu primeiro campeonato mundial. Até então, havia um quádruplo empate com cinco títulos entre a Argentina, a Escócia, a Inglaterra e o próprio Brasil. Senna venceria ainda em 1990 e 1991, deixando o Brasil isolado na dianteira com oito títulos. Com as conquistas de Nigel Mansell em 1992 e Damon Hill em 1996, os ingleses chegaram a sete mundiais e encostaram no Brasil, que vem de um jejum que já dura 16 anos.

Os ingleses contestam esses números, contudo. Eles consideram os títulos dos países que formam a Grã Bretanha. Nesse caso, além dos sete da Inglaterra, se somaria os cinco da Escócia, totalizando 12 triunfos. É um velho estratagema utilizado pelos britânicos em várias competições ao unir ou separar seus países conforme lhes convier.

Nos Jogos Olímpicos, por exemplo, o que interessa é o número de medalhas, então eles competem com uma só bandeira, a da Grã Bretanha. Já na Copa do Mundo, existe a divisão e surgem, além da Inglaterra e da Escócia, a Irlanda do Norte e o País de Gales. Isso aumenta a chance de pelo menos um desses países passar pelas eliminatórias, sempre complicada no Velho Continente.

Voltando à Fórmula 1, os italianos foram os primeiros dominadores, ganhando três campeonatos nos primeiros quatro anos de existência do Mundial, um com Giuseppe Farina, em 1950, e dois com Alberto Ascari, em 1952 e 1953. Mas o domínio terminaria aí. A Itália jamais ganharia outro título.

Antes do fim da década, a Argentina passaria a frente com os cinco títulos de Fangio (1951/54/55/56/57), marca que só seria igualada pela Escócia em 1973, graças a dois gênios que o país produziu: Jim Clark, que foi campeão em 1963 e 1965, e Jackie Stewart, em 1969, 1971 e 1973. Três anos depois, a Inglaterra também chegaria a cinco títulos com a conquista de James Hunt em 1976.

Em 1972, começaria a Era Brasileira na Fórmula 1. De 1972 à 1991, o Brasil ganharia oito mundiais de Fórmula 1 em um intervalo de apenas 20 anos. Além dos títulos já citados de Senna, antes vieram os dois de Emerson Fittipaldi (1972/74) e três de Piquet (1981/83/87). Como foi dito, o Brasil folgou na liderança até a Inglaterra se aproximar em 1996 e quase igualar em 2007. A Alemanha chegaria também a sete títulos, mas não houve propriamente uma Era Alemã na F-1. Houve uma Era Schumacher. O mesmo pode ser dito da Argentina com Fangio e da França com Prost.

O título de 2007, tirado das mãos de Lewis Hamilton por Kimi Raikkonen, colocou a Finlândia em um outro seleto grupo: o de países que conseguiram títulos da F1 com mais de dois pilotos diferentes. Antes dela, apenas a Inglaterra, com seis campeões, e o Brasil, com três, conseguiram atingir essa marca. Os ingleses produziram apenas um bicampeão, Graham Hill, que venceu em 1962 e 1968. Todos os outros cinco ganharam um título: Mike Hawthorn, John Surtees, James Hunt, Nigel Mansell e Damon Hill. Curiosamente, o maior piloto que a Inglaterra viu nascer, Stirling Moss, não ganhou um único título. Foi quatro vezes vice-campeão mundial.

A entrada da Finlândia neste fechado grupo não pode ser considerada uma surpresa. A tradição do país nórdico no automobilismo vem de longa data, como se percebe, por exemplo, no Mundial de Rally. Lá, eles são absolutos. Em 28 campeonatos, os finlandeses foram campeões 13 vezes. Para se ter uma idéia do que significa esse número, o país que vem mais próximo é a França com quatro triunfos. Seus campeões são nomes lendários no Rally: Ari Vatanen, Hannu Mikkola, Timo Salonen, Juha Kankkunen, Timo Makinen e Marcus Gronholm. Finlândia virou sinônimo de Rally com toda justiça.

Na Fórmula 1, a tradição finlandesa demorou para acontecer. Ou melhor, nunca aconteceu em números absolutos. Apenas sete pilotos chegaram no degrau máximo do automobilismo. Só que, desses sete, três seriam campeões. Quase a metade. Curiosamente, o pioneiro (o Emerson Fittipaldi deles) era sueco. Keke Rosberg nasceu no país vizinho e naturalizou-se finlandês ainda adolescente. Até então, era a Suécia que possuía grandes pilotos, como Joachim Bonnier, Reine Wisell, Gunnar Nilsson e, principalmente, Ronnie Peterson. A morte deste no GP da Itália de 1978 enterrou também a tradição sueca. Curiosamente, foi nesse ano que Keke estreou na F1.

Sua primeira vitória só aconteceu em 1982, justamente no ano em que ele seria campeão. E com essa única vitória. Um caso raro, que só tinha ocorrido antes em 1958, com o inglês Mike Hawthorn, e que nunca mais se repetiria. Keke se aposentaria em 1986 e, cinco anos depois, estrearia uma nova promessa finlandesa, Mika Hakkinen. Um grave acidente na Austrália em 1995 quase interrompeu sua carreira, mas ele se reabilitaria e conquistaria um bicampeonato em 1998/99. Mika pendurou o capacete em 2001, ano em que Kimi Raikkonen teria seu ano de batismo na F1.

A Finlândia chegou agora, em 2007, a quatro títulos, se igualando a Austrália, Áustria e França. Na frente apenas Brasil (8), Inglaterra (7), Alemanha (7), Argentina (5) e Escócia (5). O país nórdico pode ainda aumentar esse número em 2008, já que Raikkonen é forte candidato ao bicampeonato, assim como a Inglaterra com Hamilton. E o Brasil? Conseguirá defender essa liderança de títulos com Massa no ano que vem? Pois este será o tema da próxima coluna.

Otto Jenkel trabalhou no FOCA TV, cobrindo o GP do Brasil, quando a prova era disputada no Rio. Acompanha Fórmula 1 desde meados da década de 70, "quando a F1 era perigosa e o sexo seguro, hoje inverteu". Escreve sobre Fórmula 1 às segundas-feiras.

domingo, 28 de outubro de 2007

O fim do culto aos jogadores

Serginho, do São Caetano: nem a morte respeita mais o jogador (foto: Folha Imagem)

Por Odisseu Kapyn

Há dois anos fiquei impressionado com a morte de um jogador de futebol. Nem lembro mais quem é esse cara. Nem devia ser craque. O que me impressionou, na verdade, foi o fato de o cara ter morrido em campo. O sujeito estava lá, batendo uma bola, quando, de repente, caiu e morreu. A verdadeira morte súbita. Isso me motivou a escrever um texto para o site Cocadaboa, falando desse desrespeito divino em relação ao jogador de futebol. O tempo passou e eis que leio outros casos de jogadores que batem as botas (ou as chuteiras, como queiram) em pleno estádio, indo comer gramado pela raiz. Dei uma olhada no meu texto e vi que ele ainda estava atual.

Achei que seria importante dividir meus profundos pensamentos sobre o assunto aqui com os leitores do Por Esporte. Ainda mais porque estou meio sem tempo de escrever algo novo esta semana (é, vamos ser sinceros, pois corre um boato aí que Deus se amarra em atos verdadeiros, e quero ficar bem com o onipotente, já que também jogo minhas peladas e quero ser poupado). No entanto, para não meter um simples replay aqui neste site, editei o artigo, para ficar mais rápido de ler (há outro boato que diz que fã de esporte não gosta de perder muito tempo lendo no domingo, pois tem muito programa esportivo na TV). Aí vai. Mata no peito e manda ver:

“Tenho a impressão de que se formos vasculhar bem o livro do Apocalipse na Bíblia, ou as profecias de Nostradamus, vamos encontrar alguma dica de que o final dos tempos se dará quando os jogadores de futebol forem considerados gente comum. Só isso explica o que está acontecendo hoje em dia com o tratamento que estão recebendo nossos craques: estamos próximos do fim do mundo.

Antigamente, era comum ouvir histórias de jogadores de futebol contando, orgulhosos, que estavam sendo assaltados quando, de repente, o bandido o reconheceu, pediu desculpas e devolveu o que estava levando. Os caras eram mais respeitados do que o presidente da república. Não importa para que time estavam jogando, cidadãos comuns respeitavam os sujeitos como se fossem heróis. Afinal, ele realmente carregava certa dose de heroísmo, sendo geralmente um homem que saiu da pobreza para ganhar um lugar de destaque entre gente importante. Era o representante da classe pobre ou da classe média entre os ricaços. Nosso vingador. Nada mais natural que seus bens materiais fossem intocáveis, até para os assaltantes.

Mas, de alguns anos para cá, estamos vendo essa história mudar. Vemos muitas notícias de jogador de futebol que teve seu carrão levado ou sua mansão invadida. E não foi só bandido que quebrou o tabu de afanar as coisas dos craques. Até celebridades estariam dando a volta nos atletas, como afirmavam rumores de que Pedro Bial bateu uma bola com Suzana Werner, noiva de Ronaldinho na época da Copa de 1998.

Nem a Justiça está mais respeitando os jogadores, pois Edmundo chegou a ser condenado por atropelar e matar umas pessoas sem tanta importância no mundo (incapazes de fazer mais de 50 embaixadinhas). A coisa ficou ainda mais incrível quando passaram a seqüestrar mães de jogadores! Onde já se viu? Isso não se faz nem com mães de juízes de futebol, que já estão sempre preparadas para o pior.

Como isso aconteceu? Quando foi que nossos homens de ouro deixaram de ser intocáveis?

Suspeito que foram eles mesmos que abriram mão de seus superpoderes. Foi quando deixaram de se portar como heróis e passaram a agir como estrelas. Quando nos demos conta, nossos craques estavam andando em carrões de astros de cinema, morando em palácios dignos de políticos corruptos, usando chuteiras douradas e pegando mulheres já famosas. Temos jogadores de futebol participando de reality-shows, posando pelados, se envolvendo em escândalos... Não tivemos outra escolha senão cassar a imunidade que lhes conferimos no passado.

Jogamos criptonitas nos nossos super-heróis. Eles agora serão presos, serão assaltados, serão ridicularizados em programas de TV, serão corneados, terão suas mães seqüestradas, terão nomes profissionais feios (compostos de nome e sobrenome em vez de um apelido carismático), suas roupas sairão de moda e passarão a sofrer efeitos das drogas que tomarem.

Às vezes, eles até vão em cana dentro de campo, onde pensávamos vigorar apenas as regras de futebol, nas quais a penalidade máxima era cobrada com um chute ao gol sem barreira dentro da grande área. Não lembram do jogo entre Quilmes e São Paulo, quando o argentino Desábato foi preso por chamar um de nossos craques de “negro”? Justamente o Grafite, que tem apelido aludindo à cor de sua pele. Se bobear, foi o Grafite que começou com a provocação, chamando Desábato de argentino, mas isso não vem ao caso.

Esse caso também revela outra indicação da fragilidade dos outrora monstros sagrados da sociedade: o preconceito racial. Há mesmo algo de muito estranho acontecendo quando nem o dinheiro ou o talento de uma pessoa consegue encobrir a cor de sua pele diante de quem padece do mal do racismo. E agora o absurdo maior: nem mesmo a Morte respeita mais os jogadores de futebol, levando-os embora no meio da partida. Sejamos bem-vindos ao fim dos tempos. Mas será que vai ter prorrogação?”

Odisseu Kapyn perdeu a noção do perigo. Ganhou fama no Cocadaboa. Hoje, escreve na Revista M e no blog Humor Marrom, e apresenta o Ponto Cômicos, grupo de comédia stand-up em cartaz na Casa da Piada, em Copacabana. Faz suas gracinhas aqui aos domingos.

sábado, 27 de outubro de 2007

Outubro de vidro

Somos reféns dos sonhos. Mas é uma submissão justa.
Assim, a ternura não perderemos jamais.

Por Pedro Ribeiro

O vidro é uma substância inorgânica, amorfa e homogênea. Obtida por resfriamento de massa em fusão até atingir a condição de rigidez.

As Revoluções são orgânicas por natureza. Ganham forma nos sonhos, ações dos homens. Heterogêneas tais quais os seres humanos. Entretanto, obtidas pelo calor da massa e seguidas pelo resfriamento tardio.

Como o vidro, a revolução atinge a rigidez em certo momento. Mas se rompe mediante interferências externas.

Para revolucionários, outubro é mês de sonhos. Incompletos.

Há 90 anos, nasceu a Revolução Russa. Há 40 anos, morreu Ernesto Che Guevara. A Revolução e o Homem superaram o ínterim entre o começo e o fim. Entraram para a história.

A história do esporte, coadjuvante neste processo, às vezes torna-se estrela principal.

Ernesto Che Guevara morreu no dia 9 de outubro de 1967. Em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia, foi morto por militares quando planejava uma revolução que se expandiria por todo o continente. Despediu-se solitário. Distante dos próprios sonhos.

Sonhos que começaram no esporte. Che chegou a praticar 26 modalidades esportivas. Apaixonou-se rapidamente pelo futebol. Contestador, tornou-se torcedor do Rosário Central, de Córdoba, sua cidade natal. Queria se diferenciar dos amigos, em geral adeptos dos populares Boca e River.

Chegou a ganhar dinheiro jogando futebol no norte do Chile. Mas ganhou mesmo o presente de sua vida quando foi contratado pela agência de notícias Prensa Latina para cobrir, como fotógrafo, a segunda edição dos Jogos Pan-Americanos na Cidade do México, em 1955.

Clicou bastante. Principalmente atletas americanos. Ironicamente, naquele ano, os Estados Unidos estabeleciam a hegemonia mundial no esporte.

No México ficou. Conheceu os irmãos Fidel e Raúl Castro. Pegou uma lancha para Cuba. De médico a líder da Revolução Cubana. Virou mito latino-americano.

Em outubro de 1917, começou a Revolução Russa, embrião do sonho cubano, do sonho de Che. O mundo, primeiramente encantado e posteriormente decepcionado com o capitalismo, viu surgir um novo caminho. A premissa era de que a alternativa fosse mais igualitária e libertária.

O comunismo tinha tanto erros e acertos quanto o capitalismo. Ruiu oito décadas depois. Mas o legado do esporte permaneceu.

Muitos pensadores consideram o esporte uma ciência, capaz de produzir um idioma universal. Os revolucionários também pensavam assim.

Fidel, Lênin e Che, líderes de duas das maiores revoluções políticas da história, são vistos como heróis por uns.

Outros os consideram sanguinários por natureza.

O revolucionário deve ser uma fria e seletiva máquina de matar
Ernesto Che Guevara

A verdade é que a natureza do ser humano é ambígua. Pelos nossos sonhos, somos vezes homens do mal, vezes homens do bem.

"Os poderosos podem matar uma, duas, até três rosas, mas nunca deterão a primavera"
Ernesto Che Guevara

E contrariando os sonhos, eis a verdade: as revoluções, como todas as escolhas, são excludentes. E da exclusão surgem as ambigüidades.

O mesmo país capaz de produzir esportistas que defendem o governo até o fim é capaz de produzir campeões refugiados.

É assim no esporte. É assim na vida de milhões de excluídos e vitoriosos pelo mundo afora.

O futebol, paixão do asmático, sanguinário e sonhador Che, também é paixão de Eric Hobsbawn, pensador do mundo e redator da história:

“O futebol sintetiza a dialética entre identidade nacional e globalização”.

É a verdade. Hoje, os clubes são multinacionais. Semente capitalista. Mas preservam a fidelidade local das equipes. A fidelidade de Fidel. Da Rússia comunista. E de Guevara.

O mundo, também globalizado por natureza, nos ensina com os sonhos e as lamentações. De capitalistas e comunistas. Seus e meus. E o esporte, ludicamente, não exclui ninguém.

Outubro se vai. Os sonhos ficam.

Pedro Ribeiro não acredita em modelo ideal. Mas o ideal de sonhar ele não abandona. Enquanto o jornalismo não o abandona, ele trabalha como coordenador de eventos no SPORTV. Escreve sobre Esporte e Cultura aos sábados.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

A nova paixão argentina

Seleção de rugby da Argentina vira mania entre os hermanos (foto: divulgação)

Por Bruno Moreno, de Buenos Aires

Eles são uma mistura de lenhadores, guerreiros bárbaros, seguranças de boate e modelos. Estão nos outdoors de Buenos Aires, nas tevês, nas capas dos principais jornais. Fazem campanhas de mates e de lojas por atacado. Aparecem em poses sensuais em calendário estilo Pirelli. Viraram febre entre jovens e idosos, homens e mulheres. Não são artistas, nem futebolistas. Os Pumas, como são chamados os jogadores da equipe de rugby da Argentina, são um fenômeno de mobilização e marketing em torno de um esporte.

Não é à toa. Fizeram história no Mundial de um esporte que é pouco conhecido no Brasil, que acabou de ser disputado na França. Chegaram em um inédito e aplastrante terceiro lugar, vencendo os donos da casa na decisão do bronze. Se já eram festejados como guerreiros antes disso, agora são celebrados como heróis. Essa semana, uma multidão foi recebê-los no aeroporto cantando a plenos pulmões o hino nacional.

A camisa da seleção é branca com listras azuis, mas horizontais. São 15 'animales' em campo. O nome Pumas surgiu em 1965. Na ocasião, a Argentina venceu, em jogo histórico, a equipe júnior da África do Sul (apelidados no meio de Springboks), em Johanesburgo. Um jornalista local confundiu o Jaguar, símbolo da equipe, com um Puma. Pegou.

Claro que essa paixão tem uma história. O rugby é um esporte de classe média-alta, com 50 anos de existência no país. Conta com boa adesão e presença marcante no cotidiano argentino, ainda mais se pensarmos em uma modalidade tão distante das que temos na América do Sul. São 45.000 jogadores no país e 250 fora dele. Ídolos do passado também são festejados, datas lembradas. Existe um torneio nacional bem disputado, a URBA. Alguns dos Pumas surgiram desse campeonato.

As equipes são dos bairros da Grande Buenos Aires e demais províncias. O "ráguebi" sempre teve seu lugar cativo no dia-a-dia desportivo daqui, mas nunca com aceitação popular nesse vulto. Horácio Pagani, articulista do Diário Clarín, ilustra bem isso ao descrever uma vitória da seleção no mesmo dia de um clássico nacional.

"Cheguei na redação depois de um Boca e River. Achei que ia encontrar as pessoas falando da atuação dos jogadores, dos lances polêmicos, gritando o maior clássico do país. Para minha surpresa, vislumbrei um ambiente tenso, com os olhos voltados para a TV, com gritos e comentários sobre a atuação de uns monstros em torno de uma bola ovalada. Eram os Pumas enfrentando a Escócia nas quartas. Aos poucos, fiz parte da platéia. E, sem me dar conta, já estava envolvido com aquela garra, me sentido mais patriota do que nunca. Quando vi, já estava com os punhos no ar comemorando a vitória da seleção e me esquecendo que tinha uma matéria para escrever sobre o que supostamente seria o mais importante: o superclássico".

Nota importante: no dia do jogo contra a Escócia, após o clássico acima referido, alguém inventou de colocar um telão no Monumental de Nuñez, com o jogo dos Pumas ao vivo. Passados alguns minutos, tiveram que desligar. Nenhuma das duas torcidas havia saído do estádio ainda, assistindo à partida.

Máquinas de porrada e marketing

Fora dos campos, os Pumas também se deram bem. Com patrocinadores grandes e abundantes como Quilmes, Adidas, Peugeot, Nike e Visa, eles movimentaram a economia argentina. Estima-se que houve um investimento, só em campanhas publictárias, de 30 milhões de pesos. Isso é mais do que foi gasto com a seleção de futebol na Copa da Alemanha.

A audiência televisiva esteve nas alturas. As partidas dos Pumas fizeram o canal aberto 9 conseguir índices raríssimos, principalmente se tratando de um jogo de rugby. Mesmo dividindo telespectadores com a ESPN e o futebol, ficou entre os quatro primeiros no geral. Já se pensa a cobertura do torneio nacional.

As campanhas geralmente são associadas à garra e ao compromisso dos jogadores. Mesmo na adversidade, mesmo contra adversários mais fortes, mesmo desacreditados, os Pumas se superam e seguem em frente. É clara a associação desse espírito com o espírito argentino de batalhas e conquistas, ainda mais em um ambiente econômico ainda instável e de derrotas seguidas no futebol, que ainda se sustenta como a maior paixão.

Além disso, são vistos como animais com corações doces. Uma propaganda interessante mostra um dos defensores da equipe dando porrada em todo mundo. Ao fundo, uma ópera bem cantada. Bem cantada por ele mesmo. Omar Hasan é um monstro, barítono e vai lançar um cd de ópera com tango.

Mais exemplos são o abuso da imagem dos jogadores abraçados unidos, cantando em coro, de forma apoteótica, em todas as partidas, o hino nacional (chegou a dar polêmica essa maneira tão efusiva de patriotismo). Os Pumas viraram exemplos até para empresas grandes, em treinamento de coletividade e grupos de RH. Se tornaram um modo de viver, um exemplo de conquista e êxito que promete ser ainda bastante explorado pela mídia.

Efeito Puma

Após a bela campanha dos Pumas no Mundial, as atenções se voltam para o torneio nacional. A URBA chega às semifinais (se darão em novembro) e a procura por ingressos já é grande. Mas o fato que mais chama atenção é o aumento vertiginoso da procura por vagas nas escolinhas de rugby.

Um dirigente de um dos times de Buenos Aires disse que já recebeu cerca de 500 inscrições só este mês. Dez vezes mais do que o normal. Segundo dados da UAR (Unión Argentina de Rugby), em 2005 e 2006, o número de inscrito em escolinhas infantis era de 14 mil. Só em 2007, já chega a 17 mil. E a maior parte desse número se deve ao último mês. O número de crianças vai crescer cerca de 35% com relação aos anos anterirores. "Ninguém esperava isso", afirma Edgardo José, diretor das categorias infantis do UAR, ao La Nación.

A Pumamania se deu também entre jovens e adultos. Os clubes registraram um aumento, mesmo que menor, nas categorias entre 17 e 23 anos. Não só em Buenos Aires, mas também na maioria das províncias argentinas. "É muito bonito o que está acontecendo no país", completa Edgardo.

Futuro

No ano passado, liderados pelo capitão Agustín Pichot, a maioria dos jogadores do plantel atual bateu de frente com os dirigentes da UAR e renunciaram à seleção. Na época, alegaram falta de estrutura, falta de investimento, falta de atenção aos jogadores que lutavam em campos argentinos, e a suspensão de seus salários.

Alguns os tacharam de mercenários, quando, na verdade, chamaram atenção para a melhoria do esporte. A contenda chegou ao fim, os jogadores se uniram e prometeram fazer história. Pichot saiu da França, onde joga, para defender os Pumas na Argentina. Recebeu apenas 20 pesos de pagamento.

Agora, esses mesmos jogadores voltaram a cobrar mais profissionalismo por parte dos dirigentes. "Se queremos um esporte de ponta, não devemos mais funcionar como amadores", declarou Pichot há alguns dias.

Há uma pressão internacional para que a Argentina seja incluída nos principais torneios do esporte, além do Mundial: os das Três e Seis Nações. A imprensa diz que a UAR precisa se esforçar mais para que a seleção participe desses campeonatos. E que eles são fundamentais para a melhoria da equipe e preparação para o Mundial de 2011, na Nova Zelândia.

Fora os embates nos bastidores entre imprensa, atletas e dirigentes, um fato ocupa a mente de todos: a renovação. Algumas das principais estrelas já não estarão mais na equipe e o atual técnico, Marcelo Loffreda, já entregou o cargo para treinar uma equipe inglesa.

Apesar disso, novos astros (no campo e no marketing) já surgem. Os jovens Juan Martin Hernandez e Ignacio Corleto são um exemplo. "Temos bons jogadores vindo aí, além da manutenção de alguns outros mais experientes. No entanto, esse trabalho tem que continuar a ser feito, com profissionalismo e ajuda de todos. Sem brigas políticas, sem rivalidades, sem norte nem sul", idealiza Pichot, candidato a novo técnico, capitão, líder e símbolo de uma geração que fez história e criou uma nova e promissora paixão nos corações argentinos.

Bruno Moreno está mais para mulato. Zagueiro sem requinte, acha que futebol é esporte para macho. Fugiu do Sportv, da Globosat e do Serasa, no Brasil. Foi parar em Buenos Aires, onde trabalha como freelancer. Escreve para o Por Esporte como convidado.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Salve o Corinthians

Fiel tem uma missão a cumprir, mas precisará de sangue frio (foto: Folha Imagem)

Por Daniel Lessa

Ironicamente, o hino do Corinthians nunca fez tanto sentido. O Timão precisa de alguém, ou até mesmo de algo - no sentido sobrenatural da coisa -, que o salve do rebaixamento no Brasileiro. Pois se depender do elenco, a tarefa alvinegra ganha ares de missão impossível. Felipe é um bom goleiro, mas a equipe do Parque São Jorge precisa fazer gols. E como faz pouco...

O time alvinegro balançou as redes apenas 33 vezes em 32 jogos no Brasileiro. Em termos práticos, média de um gol por partida. Ataque mais positivo apenas que o do América (RN), rebaixado há milênios e que só serve de parâmetro para quem tem o descenso como meta - foram 23 gols do Dragão.

A última vez que o Corinthians fez dois gols numa partida foi no dia 2 de setembro, na vitória por 2 a 0 sobre o Santos - Arce e Nilton marcaram no Pacaembu. De lá para cá, foram míseros seis gols em dez partidas, uma delas contra o Botafogo, pela Sul-Americana. Finazzi foi o artilheiro do time nesses 45 dias, com três tentos. Os zagueiros Betão, com dois, e Zelão, com um, fecham a pobre conta alvinegra no período.

A situação se torna desesperadora porque o corintiano olha para o campo, para o banco e para onde mais a vista alcança, mas não vê solução. O jogador mais gabaritado do elenco é o lateral Gustavo Nery, que está longe de ser do tipo dá-em-mim-que-eu-resolvo e há muito tempo rende abaixo do esperado.

Lulinha tem apenas 17 anos e seria uma covardia depositar nos pés do garoto a permanência na elite do futebol brasileiro. De resto, um Finazzi esforçado e olhe lá. Ah, alguém me soprou "Vampeta". Infelizmente, está mais para animador de elenco que solução para algo dentro das quatro linhas.

Portanto, parece que a bola vai ficar mesmo com a Fiel. Que tem comparecido, mas vai precisar de sangue frio para apoiar, de forma incondicional, um time que é fraco. São seis jogos e, de acordo com os matemáticos, o Corinthians precisa de quatro vitórias. Traduzindo, o Timão precisa fazer aquilo que passou longe até o momento, um aproveitamento de 67% dos pontos.

Para ganhar contornos mais dramáticos, o líder e virtual campeão São Paulo tem 70% de aproveitamento, enquanto o vice-líder Palmeiras tem 56%. A média atual do Coringão é de apenas 40%. Ou seja, é hora de a torcida entrar em campo – no bom sentido, já que protesto e demais papagaiadas de nada vão adiantar. E já pedir ajuda a São Jorge, pois será mais do que necessária.

Daniel Lessa, o popular Cabelada, tem história nos gramados. A semelhança com seus ídolos Zico e Ronaldo começa pelos joelhos. É editor do Globoesporte.com e autor do blog Tá na Rede. Escreve para o Por Esporte como convidado.

A Copa do Rio Grande

Cícero Ramalho continua firme e forte no Baraúnas (foto: O Globo)

Por Márcio Menezes

Sabia que existe um lugar fantástico dentro do Brasil? É. Um lugar especial para a prática do futebol, onde se disputa um torneio cheio de peculiaridades. Nele existem grandes rivalidades – no interior e na capital, craques e times igualmente alternativos e fatos para lá de inesperados. Aqui, o América de Natal consegue aplicar goleadas!

Estamos falando da Copa RN, torneio promovido pela Federação Potiguar e que chega a sua quarta edição em 2007. Pela primeira vez, a competição é disputada em separado ao Campeonato Estadual. Nove clubes iniciaram em meados de outubro a luta pelo caneco, que vale vagas na Copa do Brasil e na Série C do Brasileirão do próximo ano.

Os poderosos do estado, ABC e América, vivem momentos opostos. O Alvinegro tem brilhado e briga para ascender à Série B após ter chegado ao temido octogonal da Terceirona. Já os rubros têm lugar garantido na B em 2008, após a pífia participação na elite do futebol nacional nesta temporada. Entretanto, na Copa RN, a coisa muda de figura: na estréia, no último dia 16, o Mecão goleou o rival impiedosamente por 5 a 1.

No interior, a disputa parece ser ainda mais acirrada. O destaque maior vai para o clássico de Mossoró, entre Baraúnas e Potiguar. O primeiro conta com um craque-alternativo-sagrado, o quarentão Cícero Ramalho, que já destruiu o Vasco em São Januário e desfruta de status de Deus no futebol local. Para rivalizar com Ciço, chegou Clodoaldo, o baixinho bom-de-bola do futebol cearense, que se perdeu no álcool após ganhar projeção e vinha jogando futsal. Seu companheiro de ataque também é alternativo: Sérgio Alves, ex-muitos, mas muitos times, que já fez a alegria de diversas torcidas nordestinas.

A única coisa que não muda muito da Copa RN para o mundo dos incluídos da bola é o fracasso do Timão. Lá também há Corinthians mal colocado na tabela. O homônimo do gigante paulista, da cidade de Caicó, que já foi campeão estadual (2001), é o lanterna do Grupo B após um empate contra o Macau e uma derrota para o ASSU. Haja coração!

Pô, era um pay-per-view desses que eu queria...

América Mineiro perto de nova eliminação

A coisa não anda boa para o Coelho. O time, que vai disputar a Segundona do estado em 2008, está em situação difícil na Taça Minas Gerais. A derrota por 3 a 1 para o Tupi, em Juiz de Fora, pelo primeiro jogo das semifinais da competição, obrigará o time a vencer por dois gols de diferença em casa. Melhor para o Galo, do genial Ademílson, que “deixou saudades” no Botafogo e no Fluminense.

Pinga fora do Al Gharrafa

A negociação, tão aguardada pelo público bebum, não aconteceu. O meia do Inter vai jogar, a partir de janeiro, no Al Wahda, dos Emirados Árabes, clube para o qual será cedido por seis meses.


Veloz, habilidoso e por diversas vezes envolvido em atividades paralelas. Esse é o argentino Raul Estevez, vulgo “Pipa”, ex-atacante de Boca Juniors, Racing, San Lorenzo e Acadêmica (POR), que já passou também pelo Botafogo. Após anunciar no começo do ano que sonhava em disputar provas da Dragster (modalidade automobilística), o jogador, de 29 anos, que já tem uma revista sobre o tema, agora se aventura numa marca de roupas para lá de fashion. E o futebol, Pipa, cadê?

Márcio Menezes é alternativo por natureza. Torcedor fanático do América, do Rio, é profissional de boliche e de futebol de mesa. Foi colunista do Globoesporte.com e hoje trabalha no Diário Lance. Escreve sobre futebol alternativo às quintas-feiras.

Cadê a natação carioca, meu?

César Cielo (esq) e Nicholas Santos (centro), estrelas do Pinheiros (foto: divulgação)

Por Lydia Gismondi

A coluna desta semana, na realidade, é um desabafo. Um desabafo de uma carioca decepcionada com a atual situação da natação no estado do Rio de Janeiro. Nos últimos anos, a gente só escuta falar na rivalidade Pinheiros x Minas. No Troféu Brasil, chamado atualmente de "Troféu Maria Lenk", a questão é sempre se o Minas vai conseguir superar o Pinheiros ou não. Os clubes cariocas são meros coadjuvantes.

O Pan 2007 é um bom exemplo dessa diferença entre os clubes do Rio e os demais tradicionais pólos do esporte. Dos 35 atletas que participaram da melhor equipe de natação brasileira em Jogos Pan-Americanos, 27 eram de clubes de São Paulo, 5 de Minas, 1 de Santa Catarina, 1 de Pernambuco e 1 do Espírito Santo. Nenhum atleta do Pan do Rio era "da casa", ou seja, de clubes cariocas.

O último grande nome que o Rio de Janeiro teve na natação foi Mariana Brochado, atleta do Flamengo. Mas já tem um tempo que a nadadora não conquista resultados expressivos. Inclusive, Mariana não conseguiu nenhuma das duas vagas na sua especialidade (400m livre) para o Pan do Rio.

O Troféu Brasil, principal competição nacional, também mostra bem a decadência da natação carioca nos últimos anos. Na década de 70, as disputas pelos títulos ficavam sempre entre os clubes do Rio. De 67 até 77, o Flamengo garantiu 1 título, o Fluminense, 4, e o Botafogo, 5.

Na década de 80, veio a época da fartura do Flamengo. O clube carioca conquistou oito títulos consecutivos. Já Fluminense e Botafogo, foram sumindo aos poucos. Mas, na década de 90, é que realmente tudo começou a desandar para os times cariocas. Até como reflexo da crise do futebol no estado, nenhum clube do Rio conseguiu conquistar o título nacional.

Com a crise dos clubes cariocas, foi aberto o espaço para o início da rivalidade Pinheiros x Minas. De 90 a 98, os dois clubes praticamente se intercalaram na primeira posição do Troféu Brasil. Além disso, começou a crescer a quantidade de atletas que despontavam desses clubes para a seleção brasileira.

O Vasco, que nunca teve grande destaque na natação, parecia uma luz no fim do túnel no final da década de 90. O clube chegou a vencer por três anos consecutivos o Nacional. E, em 2002, como último suspiro carioca, o Flamengo conquistou o título, o último da natação do Rio até hoje.

De lá para cá, o que vimos foi um banho do Pinheiros com grandes nomes da seleção hoje como César Cielo, Flávia Delaroli e Nicholas Santos. O clube paulista não perde o título nacional desde 2003. Com Thiago Pereira e Gabriel Mangabeira, o Minas continua não deixando o Pinheiros descansar. Já os clubes cariocas, nem cosquinha têm feito nos paulistas. Que decepção!

Lydia Gismondi alerta: os clubes cariocas estão
morrendo na praia. Foi remadora do Botafogo. Trabalhou na assessoria Media Guide, e atualmente é repórter do Globoesporte.com.
Escreve sobre esportes aquáticos às quintas-feiras.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

As forças do Oeste

Phoenix Suns, de Leandrinho, é novamente um dos favoritos (foto: Getty Images)

Por Marcelo Monteiro

A temporada da NBA começa na próxima terça-feira (dia 30) e fechamos com esta coluna a análise dos 30 times que vão disputar o título mais cobiçado do basquete mundial. A Conferência Oeste segue muito forte, com San Antonio Spurs, Phoenix Suns e Dallas Mavericks mantendo suas bases de peso, e Houston Rockets, Utah Jazz e Los Angeles Lakers desafiando os favoritos.

Confira também as divisões central e noroeste, atlântico e sudeste.

A caixinha de comentários está liberada para você. Dê seus palpites sobre a temporada. Quem você acha que vai se classificar para os playoffs? Na semana que vem, dou os meus palpites de 1 a 8 no Leste e Oeste.

DIVISÃO DO PACÍFICO

PHOENIX SUNS
O Suns inicia uma nova temporada com a mesma expectativa das duas últimas: chegar ao inédito título da liga. Apesar dos comentários de que contrataria Kevin Garnett, a equipe da Arizona manteve seu tripé, com Steve Nash, Amare Stoudemire e Shawn Marion. Os rumores das saídas de Stoudemire (iria para o Atlanta em uma negociação triangular que levaria Garnett para Phoenix) e Marion (estaria insatisfeito no time) não se concretizaram. Mantém um elenco de apoio de ótimo nível, com Leandrinho, Boris Diaw e Raja Bell. Dá uma nova oportunidade a Grant Hill, que tenta deixar no passado as seguidas lesões que comprometeram sua carreira. É uma das forças do Oeste e tem tudo para brigar de igual para igual com Spurs e Mavs.

GOLDEN STATE WARRIORS
Autor do maior façanha da temporada passada – eliminar o favoritíssimo Dallas Mavericks na primeira rodada dos playoffs -, o Golden State inicia a temporada de cara nova. A diretoria decidiu abrir mão de três jogadores importantes do elenco – Jason Richardson, Sarunas Jasikevicius e Adonal Foyle. O time segue sob a batuta de Baron Davis e confia nos jovens Monta Ellis e Brandan Wright. E também nos experientes Stephen Jackson e Al Harrington (que retomam uma dupla formada no Indiana Pacers). Vai lutar para chegar aos playoffs. Se chegar entre os quatro melhores, como na temporada passada, já será uma baita vitória.

LOS ANGELES LAKERS
Kobe Bryant ficou, apesar de afirmar que queria sair e depois negar. Mas o certo é que contar com um dos melhores jogadores da liga (na minha opinião, o melhor), não é garantia de sucesso. A diretoria tentou reforçar o elenco, na luta para aplacar os desejos de “independência” do astro, mas não conseguiu. Kevin Garnett, Jermaine O’Neal e Shawn Marion entraram na onda de rumores e nada. A novidade, que não chega a ser tão nova assim, é o retorno do armador Derek Fisher. Com o talento de Kobe, o Lakers deve chegar aos playoffs, mas o elenco segue inferior a Spurs, Suns e Mavs.

LOS ANGELES CLIPPERS
Ano que promete ser de sacrifício para o primo pobre de Los Angeles. O time perdeu por tempo indeterminado seu astro, Elton Brand, que operou o tendão de Aquiles esquerdo. A esperança é que um leque de jogadores experientes – Sam Cassell, Cuttino Mobley, Corey Maggette e Tim Thomas - consiga levar o time a bons resultados na disputadíssima Conferência Oeste até o retorno de Brand. Missão nada fácil. Na temporada passada, ficou a dois jogos dos playoffs. Se chegar à pós-temporada, já será uma vitória.

SACRAMENTO KINGS
Um dos principais times do Oeste (e da NBA) na virada do século, o Sacramento Kings ainda segue em busca de um novo rumo. Mike Bibby é o remanescente da equipe que, por pouco, não chegou à final da liga, contando com Chris Webber, Doug Christie, Peja Stojakovic, Vlad Divac e outros bons jogadores. Além do armador, a equipe hoje depende do polêmico e talentoso Ron Artest, aquele mesmo que foi pivô de uma das maiores brigas da história da NBA, em um jogo entre Indiana e Detroit. Se os jovens Kevin Martin e o calouro Spencer Hawes se superarem, pode sonhar com os playoffs, mas é difícil.

DIVISÃO DO SUDOESTE

DALLAS MAVERICKS
Após dois anos de decepções (derrota na final da liga para o Miami em 2006 e eliminação na primeira rodada dos playoffs para o Golden State em seguida), muitos analistas consideram que o time perdeu o bonde da história e precisa ser reformulado. A tarefa da equipe é provar o contrário. A diretoria, liderada pelo milionário-maluco Mark Cuban, manteve a base da temporada passada, com o alemão Dirk Nowitzki e o excelente Josh Howard. A dúvida é se o restante do elenco, formado em boa parte por jogadores irregulares (Jason Terry, Jerry Stackhouse, Devean George), conseguirá levar o time longe. Experiência não vai faltar. O principal reforço é o veterano Eddie Jones, 36 anos, ex-Lakers e Miami.

HOUSTON ROCKETS
Tracy McGrady garante que o Houston tem time para brigar pelo título. É uma análise otimista, mas não há dúvida que o Houston chega forte para a temporada. Além de manter seu cestinha e o gigante Yao Ming, a equipe se reforçou com o excelente Luis Scola, destaque da Argentina no Pré-Olímpico da Américas. E trouxe de volta o armador Steve Francis, que ainda luta para se firmar como grande jogador na liga. Os quatro e mais o ala Shane Battier formam um dos melhores quintetos titulares da liga. E ainda tem Bonzi Wells (ex-Portland) como sexto homem e o experiente Dikembe Mutombo, para pegar rebotes e dar uns tocos. Apostaria que chega entre os quatro melhores do Oeste.

MEMPHIS GRIZZLIES
Depois de uma temporada de pesadelo - time com pior campanha na liga -, o Memphis tenta renascer. E tem armas para isso. A principal é o jovem armador Mike Conley Jr., número quatro do draft e considerado um talento nato por vários analistas da NBA. O time também investiu além-fronteiras dos EUA, dando uma chance ao sérvio Darko Milicic, que fracassou no Detroit Pistons, e ao espanhol Juan Carlos Navarro, que volta a jogar ao lado do compatriota Pau Gasol, com quem foi campeão mundial em 2006. Está com um elenco melhor do que no ano passado, mas ainda parece insuficiente para pensar em playoffs.

NEW ORLEANS HORNETS
De volta à terra do jazz após a transferência momentânea para Oklahoma, o Hornets deverá ter dificuldades na temporada. O time conta com um excelente armador (Chris Paul, melhor calouro de 2006) e um ótimo ala-pivô (Tyson Chandler). Mas o restante do elenco é apenas regular, algo que se torna ainda mais problemático pelo fato de o time estar brigando no Oeste. Os brasileiros devem ficar de olho em Marquinhos, que causou polêmica ao questionar fortemente o trabalho de Lula Ferreira no comando da seleção, e ver se o ala joga tanto quanto pensa que joga.

SAN ANTONIO SPURS

Atual campeão, o Spurs segue a velha receita de não mexer em time que está ganhando. A diretoria não fez mudanças significativas no elenco, que segue recheado de craques. Com o trio Duncan, Parker e Ginóbili e a força de coadjuvantes de ótimo nível (Finley, Bowen, Oberto, Horry, Barry), se mantém como forte candidato ao título. Pena para os brasileiros que Alex se machucou durante a pré-temporada e não foi aproveitado pelo time. Seria uma grande chance de um jogador brasileiro ganhar, pela primeira vez, o título da liga.

Marcelo Monteiro mal chega a 1,70m, mas é mortal nas bolas de três. Torcedor fanático do Atlanta Hawks, trabalhou por nove anos em sites das Organizações Globo. Hoje, empresta seus conhecimentos à Textual Assessoria. Escreve sobre basquete às quartas-feiras.

Duas ligas, um campeão

Kaz Matsui, estrela do Rockies, treina no palco do primeiro jogo (foto: mlb.com)

Por Fernando Andrade

Hoje, começa a World Series, uma melhor-de-sete para decidir quem é o melhor time de beisebol dos Estados Unidos em 2007. O Boston Red Sox, campeão da Liga Americana, é o favorito para derrotar o Colorado Rockies, grande zebra da temporada. Só que, como eu errei três vencedores, em quatro duelos no início dos playoffs, não vou mais tentar fazer previsões, apontar favoritos. Até porque, na WS, os dois times jogarão com as regras das duas ligas, com ou sem rebatedor designado, e isso, sem dúvida, pode atrapalhar um pouco a vida da equipe de Boston.

No lugar de fazer apostas, vou seguir a sugestão de pauta que me foi dada por minha irmã, que, apesar de acompanhar beisebol e ser assídua leitora dessa coluna, não entende o motivo de existirem duas ligas, com regras distintas.

Origem

Nos anos de 1882 e 1883 os campeões da Liga Nacional e da Associação Americana, considerada uma liga secundária, se enfrentavam em partidas de exibição, ainda sem o reconhecimento do vencedor como o melhor time dos Estados Unidos. Em 1884, com o crescimento da Associação Americana, os vencedores de cada liga começaram a se enfrentar em jogos que valiam o título de melhor equipe americana. Esses confrontos, entretanto, só duraram até 1891, ano em que a Associação Americana de beisebol faliu e quatro de seus times seguiram para a Liga Nacional. Esses confrontos, entretanto, nunca foram reconhecidos pela Major League Baseball como edições da World Series.

De 1892 a 1900, a Liga Nacional era a única grande liga de beisebol dos Estados Unidos. Por isso, não havia o interesse de confrontar seus times, formados por grandes astros do beisebol na época, com equipes de menor expressão.

Em 1901, entretanto, surge a Liga Americana, considerada, então, outra liga de segunda expressão, mas que já conseguia brigar economicamente com a Liga Nacional. Essa disputa econômica, inclusive, impediu a realização de jogos entre os vencedores de cada liga, já que não havia o interesse, especialmente da Liga Nacional, em dividir seus ganhos com uma nova liga.

Essa mentalidade só mudou dois anos depois, em 1903, quando a Liga Americana já tinha conseguido se estabelecer como potência. Nesse ano, o Boston Pilgrims (atual Red Sox) conquistou a primeira WS reconhecida pela MLB, derrotando o Pittsburgh Pirates, campeão da Liga Nacional, por 5 jogos a 3.

Desde então, a World Series foi disputada sob todas as situações possíveis, como o envolvimento americano nas duas grandes guerras, a grande depressão da década de 30 e um grande terremoto em 1989, na área da baía de San Francisco, quando os dois times da região, Oakland A’s e San Francisco Giants, decidiam o título.

Somente em duas temporadas, desde sua primeira edição, a World Series não foi realizada. O motivo, é claro, dinheiro. Em 1894, o proprietário do New York Giants, campeão da Liga Nacional, proibiu seu time de jogar contra o Boston Pilgrims, alegando que a Liga Americana era inferior e que sua equipe, então já poderia ser considerada como a melhor dos Estados Unidos. Mas, apesar dessas alegações, o grande problema era o acordo traçado entre as duas ligas, que dizia que o dinheiro arrecadado deveria ser dividido entre os dois times.

Em 1994, apesar do motivo ser o mesmo, os causadores do problema foram outros: os jogadores. Os atletas das duas ligas entraram em greve, pedindo maiores salários e impediram a realização dos jogos finais da temporada. Muitas simulações em computadores foram realizadas para tentar descobrir o que poderia ter acontecido se New York Yankees e Montreal Expos, que possuíam as melhores campanhas em cada liga, tivessem se enfrentado. A maioria das simulações apontou os Expos como os campeões virtuais de 1994. Muitos acreditam que, se a temporada tivesse continuado, um título poderia ter dado mais sucesso e impedido a falência da equipe de Montreal, atual Washington Nationals.

As regras

Como cada liga possui normas próprias, as equipes que disputam a World Series se enfrentam jogando com a regra do time mandante.

Esse ano, por exemplo, nos jogos que forem realizados no Coors Field, casa do Colorado Rockies, os dois times deverão colocar seus arremessadores para rebater, como define o regulamento da Liga Nacional, da qual os Rockies fazem parte.

Quando as partidas acontecerem no Fenway Park, campo do Boston Red Sox, os times poderão, e irão, optar por colocar o rebatedor designado, que, além de melhores no bastão, ajudam a poupar os braços de seus arremessadores.

Essa diferença de regras, aliás, pode representar a única vantagem para os Rockies, já que seus arremessadores estão mais acostumados a rebater. Apesar disso, acho que os Red Sox levam a melhor, chutando uma vitória por quatro jogos a dois. Sei que falei que não tentaria fazer previsões, mas agora já foi.

Fernando Andrade passou de fã a companheiro de transmissões de Ivan Zimmerman. Jornalista, trabalhou nas rádios Tupi, Nativa, Jovem Pan e Paradiso. É jogador, treinador e presidente da Federação Carioca de Beisebol e Softbol, e escreve sobre o esporte às quartas-feiras.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Melhor do Rio! E daí?

Torcida do Fla dá show, mas o time não está nem no G4 (foto: globoesporte.com)

Por Emiliano Tolivia

Sei que tem gente me xingando, rogando pragas por causa do título do artigo. Pé de pato mangalô três vezes e vamos em frente. Salvo engano, o grito de “ô ô ô melhor do Rio!” originou-se na torcida do Fluminense em 2000 ou 2001. Particularmente, sempre achei esse pensamento um tanto quanto medíocre, levando-se em conta que estamos falando do futebol carioca. O Figueirense pode ser o 12º e, ooô, é o melhor de Floripa. O Goiás, idem. O América-RN? Mesma coisa, vejam só! Mas o Flamengo não pode. Nem o Flu. Tampouco Vasco ou Botafogo. E todas as torcidas já cantaram essa desgraça.

É o roto rindo do esfarrapado. É o pobre coitado que mora em barraco de papelão rindo do mendigo que dorme ao relento. É a Ponte Preta gozando o Guarani. Quem é o melhor do Rio? De repente é o Flamengo, sim! Mas porque é o atual campeão carioca. Ou, quiçá, seja o Fluminense, vencedor da Copa do Brasil e único clube já classificado para a Taça Libertadores. O Botafogo o foi também, mas quando era líder do Brasileirão. Ou, no mínimo, o quarto colocado, ainda beliscando uma das vagas. Agora, após 32 rodadas, só existe o menos pior.

Então, voltando ao Tricolor das Laranjeiras, que foi o primeiro exemplo. Foi o melhor do Rio em 2000, 2001 e 2002. Não ganhou um único Brasileiro e não se classificou para a Libertadores em nenhum desses anos. Quem está nesta onda agora é o Rubro-Negro. Se entrar no G4, aí sim. Caso contrário, vai cair no mesmo erro dos rivais.

É engraçado (ou trágico) ver um comportamento tão provinciano na cidade (e povo!) mais cosmopolita do país. Talvez seja reflexo de um crescente sentimento de inferioridade em relação a São Paulo no que diz respeito à riqueza - em geral - e estrutura – no futebol especificamente. Talvez, o São Paulo, o clube, e até o Santos estejam se tornando inalcançáveis demais em um modelo de pontos corridos que já não permite times heróicos ou arrancadas de última hora.

A euforia do Flamengo é perfeitamente compreensível. Para variar, os rubro-negros quebraram o recorde de público da competição. Para um clube que passou o tempo inteiro beirando a zona do rebaixamento, dormindo nela por uma rodada, vislumbrar a Libertadores é quase um título. Mas não é. E um clube como o da Gávea – assim como o de Laranjeiras, de General Severiano e de São Januário -, não pode se contentar com tão pouco. O Rio é muito pequeno para os clubes do Rio.

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Ainda o Flamengo, ninguém poderia acreditar nessa arrancada. Mais um milagre de Joel Santana, que atualmente parece só dar certo no clube. Quem sabe, desta vez, a estátua sai. A missão ainda é complicadíssima, mas cada vez mais palpável. O maior obstáculo do treinador é fazer o time jogar como visitante da mesma forma que atua em casa. E isso, até o momento, não aconteceu.

Uma minoria cética de flamenguistas – prudência não é uma virtude rubro-negra, convenhamos – acredita que o time vai se complicar contra o maior lanterna de todos os tempos América, em Natal. Há também quem festeje o fato de, talvez, o jogo ser realizado com portões fechados. Pois aí eu acho que o Flamengo sai perdendo. A torcida rubra já não tem comparecido em peso e compromisso do Fla no Nordeste é sempre sinônimo de casa cheia. Com a presença da galera, a maioria nas arquibancadas seria do clube carioca e, fatalmente, estaria criado um certo clima de Maracanã.

Agora, sem querer secar? Euforia em excesso, como qualquer coisa na vida, faz mal. A torcida do Flamengo vive há mais de um quarto de século a fanfarra de “Rumo a Tóquio”. Regozija-se de uma conquista que aconteceu, claro, mas há tempos. A era Zico acabou há um bocado. E isso, acreditem, no fim das contas faz mal ao clube. A empolgação é benéfica, desde que não substitua a razão. É um mal das massas. A chance existe, mas já não há mais Leandro, Júnior, Andrade, Adílio e Nunes. Vai ser, se for, Bruno, Leonardo Moura, Ibson, Souza. Muito suor. E muita sorte.

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Perigo à vista: Galera Flores está prontinho para voltar, logo na posição em que o Flamengo é mais carente: quarto homem de meio-campo. Até que o Toró tem seu valor, sabia...

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Renato está certíssimo ao dizer que há uma fila de pretendentes a envergar a camisa do Fluminense em 2008, ano em que o clube volta a disputar a Libertadores. Que atuação ridícula contra o Goiás! Um time que faz três gols na casa do adversário não pode perder o jogo. Ainda mais contando com a segunda melhor defesa do Campeonato Brasileiro. Mas conseguiu buscar cinco gols na rede – verdade seja dita, Fernando Henrique não falhou em nenhum deles.

Nem FH, nem Thiago Silva, que, além de jogar bem, bateu com extrema categoria os dois gols. No segundo, nitidamente deu um chega para lá no Gabriel, que havia perdido a cobrança contra o São Paulo, após Thiago Neves ter convertido a primeira. Uma atuação para lembrar, e muito, porque o maior torneio das Américas não permite um comportamento tão displicente.

Por falar em Libertadores, meu colega e amigo Caio Barbosa, setorista do Fluminense para o Globoesporte.com, dá em primeira mão que Carlos Alberto pode reforçar o Tricolor novamente em 2008. Excelente notícia! Mesmo sem ter realizado o primeiro semestre exuberante que dele se esperava, o meia foi muito importante para a conquista da Copa do Brasil.

Sua simples presença em campo preocupava os adversários. Adriano Magrão fez um gol atrás do outro porque estava sempre sozinho, enquanto CA se concentrava em prender três marcadores. Esse quadro só mudou quando Thiago Neves ganhou respeito no cenário nacional. Esse ínterim, coincidentemente, foi o de pior aproveitamento do Flu no Brasileiro.

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Romário é o novo técnico do Vasco! Pior do que o Celso Roth não deve ser. Eu já havia dito que tinha gato-mestre dizendo “não falei que o Roth era bom treinador?”. Depois que a equipe cruzmaltina desandou a perder e despencou na tabela, nada mais se ouviu. Some-se mais este fracasso ao seu retrospecto – nem tão – recente e vamos ver que ele é... o Mário Sérgio.

E o Baixinho? Vai ser disciplinador? Estrategista? Oba-oba? Vamo-que-vamo? Eu acredito que não passa de um ou dois jogos no cargo. E também que ele não vá seguir os passos de Renato Gaúcho, que ninguém poderia prever que, após toda sua polêmica carreira, viria a se tornar um técnico de respeito. O mais interessante é que, ao contrário do amigo de praia, Romário tem condições de entrar em campo, o que não acontecia quando Renato assumiu o Flu em 1996. Precárias, mas tem.

Pavio curto do jeito que é quando o assunto é reclamar de companheiro de ataque, três substituições serão poucas para o professor Romário. Mas... treinar pra quê?

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Golaço de Lucio Flavio, golaço de Dodô e o Botafogo volta a vencer no Brasileirão, desta vez contra o Sport, no Engenhão. Mas a cena mais marcante da partida foi a fratura na perna sofrida por Luciano Almeida. Botinudo de marca maior, o lateral conseguiu se machucar sozinho, executando a jogada que é sua especialidade: o carrinho.

Bom, desta vez, pelo menos quem levou a pior foi ele, e não seu pobre marcador. Caso alguém não lembre, o lateral que vibra mais com (nem sempre limpos) desarmes do que com seus (raros) gols quebrou a perna de Reasco, do São Paulo. Jogo este em que Túlio também chutou o rosto do atacante Leandro, quando este estava caído no chão.

No lance em que machucou Reasco, Luciano Almeida não chegou a fazer uma falta desclassificante. Mas deu aquele “totozinho”, famoso “rápa”, “chegada junto”, em vez de visar à bola. E deu no que deu. Não desejo o mal de ninguém, longe de mim, mas não há como não ver uma irônica justiça nisso tudo. Tomara que, no tempo em que vai ficar parado, o alvinegro reflita e repense seu modo de se comportar em um campo de futebol. Violência é uma coisa. Raça é outra. A bruxa está solta. Te cuida, Sandro Goiano!

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Seleção carioca da rodada:

Bruno, Leonardo Moura, Thiago Silva, Fábio Luciano e Egídio; Cristian, Perdigão, Ibson e Lucio Flavio; Dodô e Souza
Técnico: Joel Santana

Momento Carlos Augusto Montenegro da rodada:

“Joilson, a partir dos 25 minutos do segundo tempo, pedia para sair com dorzinha na perna; Dodô, aos 36, chegava à beira do campo e falava que estava com dor de barriga; o capitão Juninho não abriu a boca; e Jorge Henrique queria sair, pois estava com dor de cabeça”

O próprio, em e-mail enviado ao jornalista Arnaldo Bloch, ainda falando sobre a fatídica derrota para o River Plate, pela Copa Sul-Americana.

“Se estivesse bem, ia requebrar até o chão e tomaria o meu vinho”

Somália, do Fluminense, rebatendo as críticas do técnico Renato Gaúcho por ter ido a uma boate com Ronaldinho, Robinho e Cia. após a vitória da seleção brasileira sobre o Equador, no Maracanã. O centroavante-bailarino lesionou o joelho e deve ficar cerca de oito meses longe dos gramados.

Emiliano Tolivia é melhor que o Eto'o, melhor que o Henry, mas respeita o Pelé. Passou pelo Lance, assessoria de vôlei de praia da CBV e atualmente é subeditor do Globoesporte.com, pelo qual cobriu a Copa 2006. Escreve sobre futebol carioca às terças-feiras.

Nasce "o" volante

Anderson vem jogando como volante no Manchester United (foto: AP)

Por Vitor Sérgio Rodrigues

Nas minhas muitas incursões como dirigente de times de futebol no CM e agora no FM (a maioria com sucesso, diga-se), minha primeira contratação sempre é um volante. Não um volante do tipo Rômulo, Jaílton ou Léo Medeiros (para ficar só no meu time), mas um volante que dê ritmo e desafogue o time. Na recém-jornada que comecei com o Manchester City no Football Manager 2007, por exemplo, consegui um negócio da China, ao trazer Fernando Gago (no jogo, encostado no Real Madrid) por empréstimo, com opção (exercida) de compra.

Nos últimos 15 anos, não tem como fugir: se seu time quer ser bem sucedido, tem que ter volantes que saibam jogar. É líquido e certo. Nos grandes jogos, seus meias quase sempre caem na arapuca de volantes armada pelo treinador adversário e a bola acaba ficando grande parte do jogo nos pés dos volantes do seu time. Assim, no balanço dos títulos, levam a melhor os que têm na posição nomes como Redondo, Roy Keane, Scholes, Vieira, Rincón, Juninho Pernambucano, Pirlo, Cambiasso, Gerrard, Essien, Fábregas, Lucas, Gago e... Anderson.

Aí você me pergunta: Anderson, que Anderson? É esse mesmo. O Anderson, ex-Grêmio, protagonista da Batalha dos Aflitos, que todo mundo se acostumou a ver no Grêmio e no Porto jogando como meia-atacante. Está estranhando eu colocar o cara como volante, mas não se espante. Podemos estar vendo o nascimento do que, no futuro, pode ser o melhor volante do mundo.

Nos últimos dois jogos do Manchester United, na goleada sobre o Wigan por 4 a 0, no dia 6, e na vitória por 4 a 1 sobre o Aston Villa, no último sábado, Anderson atuou como volante. A primeira por necessidade, em virtude da contusão de Vidic (com Brown indo para a zaga e O’Shea para a lateral). A segunda por opção de Sir Alex Fergunson. Dentro do 4-4-2 que impera no Campeonato Inglês, Anderson atuou ao lado do veterano Paul Scholes, pela faixa central do campo, atrás dos dois jogadores abertos.

E foi muito bem. Ajudou muito na marcação, mas também chegou, com o imenso talento que tem, com propriedade no auxílio ao ataque. Participou ativamente de vários gols marcados pelo time dando, inclusive, assistência para um deles.

Com a visão e a competência que tem Ferguson, não é de espantar que essa improvisação (não seria uma adaptação?) esteja sendo bem sucedida. Agora eu chamo a atenção para o futuro. Por que não Anderson mudar de vez para a posição? Jogar mais atrás pode ser uma excelente opção para a carreira dele, tanto no Man Utd (arrumar lugar com C. Ronaldo, Giggs, Tevez e Rooney é complicado. E o Scholes está nas últimas), quanto na Seleção Brasileira (é mais fácil barrar o Mineiro como segundo volante ou arrancar a posição de um dos quatro: Kaká, Ronaldinho, Robinho ou nosso camisa 9 indefinido?).

Claro está que Anderson ainda precisa melhorar em termos de roubo de bola, posicionamento e senso de marcação. Mas vale o esforço, principalmente levando em conta o pulmão que ele tem. È uma alternativa maravilhosa que se abre para quem gosta do bom futebol. Copiando o amigo Thiago Dias, deixo uma pergunta: quem você preferiria como segundo volante da Seleção: Mineiro (que é até acima da média dos volantes brasileiros com a bola no pé) ou um jogador com a técnica do Anderson?

Vitor Sérgio Rodrigues continua louco por CM, mesmo apanhando em casa. Trabalhou no Jornal dos Sports, Diário Lance, por onde cobriu as Olimpíadas de Atenas, e Globoesporte.com. Hoje, é comentarista da TV Esporte Interativo. Escreve no Por Esporte às terças-feiras.

A Fênix de gelo

Um ponto que fez a diferença: trabalho de equipe (foto: autosport)

Por Otto Jenkel

Talvez nem Alfred Hitchcock, o maior cineasta de suspense da história, pudesse bolar um roteiro tão espetacular como o que assistimos nesse final da temporada de F1. A vantagem de pontos que o inglês Lewis Hamilton tinha no campeonato era tão grande que somente uma sucessão de fatos poderia evitar que ele se tornasse o primeiro campeão da F1 no seu ano de estréia. Da mesma forma, tudo parecia perdido para Kimi Raikkonen, que, faltando duas provas para o final do Mundial, teria que descontar 17 pontos, em 20 possíveis, que o inglês tinha de vantagem sobre ele.

Impossível mudar esse roteiro, diriam muitos. Só acontece no cinema, diriam outros. O que as pessoas não levaram em consideração é o que torna o esporte em geral tão fascinante: a incerteza. Mesmo sabendo que o seu clube de futebol é muito inferior a um outro, você vai a um estádio, porque acredita, mesmo secretamente, que o imponderável pode acontecer. Quem poderia imaginar que o Uruguai pudesse ganhar do Brasil em pleno Maracanã, na final da Copa de 1950? Ou que George Foreman pudesse perder para um (aparentemente) decadente Mohammed Ali na disputa do título mundial de pesos pesados do boxe, em 1974, no Zaire?

Na F1, o exemplo mais recente aconteceu em 1986, quando Nigel Mansell era o favorito absoluto na disputa do título contra Alain Prost e Nélson Piquet. As Williams do inglês e do brasileiro se digladiaram o campeonato inteiro, do que se aproveitou o francês para chegar na Austrália, última prova do ano, com chances de ser campeão. A situação era semelhante a atual. Somente uma vitória de Prost e uma corrida desastrada de Mansell poderia tirar o título do inglês (ver coluna anterior). No fim das contas, tudo conspirou contra Mansell, que perdeu o título para Prost.

Na época, o francês corria na McLaren, equipe que já era chefiada por Ron Dennis. Este saboreou um título considerado impossível, e a partir daí a McLaren se tornou o maior sinônimo de equipe bem organizada na F1. A Williams em 1986 brincou com os caprichos do destino. Deu chance ao azar. E foi exatamente isso que aconteceu nesse final de temporada de 2007. Desta vez, Dennis provou do mesmo veneno que a Williams em 1986, e a McLaren sofreu a maior derrota de sua história. O roteiro, contudo, se apresenta como uma crônica de uma tragédia anunciada.

Ao declarar que a McLaren estava contra Fernando Alonso, e automaticamente a favor de Lewis Hamilton, Dennis assinou a própria sentença de morte. Não levou em conta justamente essa incerteza que torna o esporte tão espetacular. Nas últimas duas semanas, essa mesma coluna alertou que Dennis havia esquecido que havia um postulante ao título que vestia um outro uniforme e que, ao contrário de todas as certezas, a vida às vezes prega peças. Pois é. Pregou.

Havia uma possibilidade de Hamilton perder o título, cair na armadilha de Fernando Alonso. E não é que ele caiu? O espanhol só tinha uma arma. Tentar desestabilizá-lo, para que o inglês cometesse um erro. Hamilton parecia nervoso desde a volta de apresentação, quando não acertava a posição correta do câmbio. A rotação do motor estava bem mais alta que o normal e a equipe o avisava para ter calma que tudo estava certo.

Na largada, ele logo perdeu a segunda posição para Raikkonen, errou a freada da chincane e quase bateu na traseira do finlandês, do que se aproveitou Alonso para ultrapassá-lo por dentro. Se tivesse ficado onde estava, seria o campeão. Mas ninguém sabe porque tentou passar o espanhol no final da reta oposta. Errou a freada, saiu da pista e caiu para o oitavo lugar. Para piorar, seis voltas mais tarde, errou uma troca de marcha e deixou o carro em ponto morto caindo para o 18º lugar.

A equipe, já desesperada, inventou mais uma troca de pneus, das duas previstas, o que tiraram do inglês qualquer possibilidade de recuperação. Seria muito difícil de qualquer maneira, devido ao desequilíbrio emocional de Hamilton, pagando um preço muito duro por uma imaturidade já revelada antes, na China, quando atolou na brita dos boxes.

Foi o preço do noviciado, talvez. Pode ser. O garoto tem lá seus 22 anos e querer crucificá-lo seria covardia. É verdade. Mas Hamilton também está longe de ser um coitadinho como os ingleses tentam moldar. Aliás, ninguém que tem a oportunidade de começar a carreira na F1 dentro de uma McLaren pode ser avaliado como tal. É uma oportunidade ímpar, que raramente é concedida mesmo para quem foi brilhante em categorias de base. A comparação que tentaram fazer dele, ser o primeiro campeão em um ano de estréia, fato que nem Senna ou Schumacher conseguiram, é absurda, já que eles não tiveram equipamento para tal.

Lewis sempre foi favorecido em todas as medidas tomadas pela FIA este ano. Se a entidade o tivesse punido, como faz com os outros pilotos, ele perderia alguns pontos, e entraria como azarão nessa disputa do título. Ele acabou vítima da "Hamiltonmania" que invadiu a Inglaterra e acabou não suportando a enorme pressão de ser quase campeão. Agora, é botar a cabeça no lugar e tentar se recuperar já no ano que vem. Talento ele tem, mas não será fácil. Para quem esteve tão perto da vitória, a derrota pode ser avassaladora.

Já para o bicampeão Fernando Alonso, o resultado da prova de Interlagos teve duplo sabor. O primeiro o da satisfação de ser, indiretamente, ou diretamente mesmo, o responsável pela perda do título de seu rival Hamilton, ao desestabilizá-lo. É fácil condenar Alonso, mas a pressão dentro da equipe de Wöking dá ao espanhol todos os motivos para se sentir injustiçado. A declaração de Dennis que a equipe estava contra ele só corroborou isso. É, "Fernandinho" deve ser o homem mais odiado na Inglaterra hoje. Mais do que Raikkonen, foi ele quem tirou o título das mãos do garoto.

Por outro lado, Alonso mostrou um outro semblante no pódio, como se pensasse "o título não foi para Lewis, ótimo, mas se não fosse aquela punição na Hungria, seria meu". Certamente, o espanhol está mordido e ainda deixou no ar uma dúvida: qual equipe ele defenderá em 2008?

O título que a McLaren não soube ganhar foi, e é bom que isso seja dito, merecidamente ganho pela Ferrari. E por Kimi Raikkonen. O julgamento do caso da espionagem em Paris, que inocentou os pilotos da McLaren, por si só, já seria razão suficiente para que a McLaren não merecesse o título. Ele mancharia para sempre a ética na F1. Quis o destino que uma outra razão, preterir um piloto de sua própria equipe em favor de outro, quando ainda havia um terceiro na disputa, destruisse completamente os planos da equipe de Dennis.

Foi justamente aí que a Ferrari ganhou o título. Ela deixou seus pilotos mostrarem quem era o melhor. O finlandês era o novato na equipe, mas quando se acostumou com o novo ambiente, deslanchou. Nas últimas 10 provas, ganhou 5, fez dois segundos e dois terceiros. Venceu três das últimas quatro provas, e conseguiu descontar a maior diferença de pontos para um líder na história da F1, com poucas provas para o final. Não foi pouco.

Raikkonen não faz parte dessas "prima donnas" que são a maioria dos pilotos da atualidade. Não reclama e nem fica se lamentando com a imprensa. É rápido como poucos e quase não comete erros. Quando os comete, não busca desculpas como a maioria. Não é simpático, é verdade, mas isso aqui não é concurso de simpatia. Mas é um homem íntegro, que jamais foi acusado de qualquer manobra desleal nas pistas.

Quando ficou claro que só Raikkonen poderia ser o campeão, a Ferrari fechou com ele e definiu a posição de Massa: um escudeiro. Com as turbulências dentro da McLaren, começava a se desenhar a reviravolta que aconteceria. A atitude da equipe de Maranello no Brasil foi perfeita. Tomar a ponta e, dependendo do que acontecesse com Hamilton, dar a vitória para Kimi. Com o inglês fora de combate, era só estabelecer essa troca de posição da forma que foi feita, adiantar a troca de Massa e pedir para o brasileiro dar uma maneirada para que Kimi tomasse a ponta.

Nada de errado nisso. Ninguém é louco de perder um título dessa forma. A McLaren o fez, contudo, em 2007. O pedido, pela equipe inglesa, da desclassificação das BMW e da Williams por irregularidades no combustível, mostra o último ato de desespero de uma equipe que teve o ano mais negro de sua história. Um final melancólico.

O título está, então, em muitas boas mãos. Chamado de homem de gelo, Raikkonen teve a frieza de descontar uma diferença de pontos absurda, que vai entrar para a história, renascendo das cinzas, assim como a Fênix, a ave mitológica. Não é qualquer um que faz isso. Kimi não é qualquer um. Seu antigo patrão parece não ter levado isso em consideração. E o preço que foi pago foi muito caro.

Otto Jenkel trabalhou no FOCA TV, cobrindo o GP do Brasil, quando a prova era disputada no Rio. Acompanha Fórmula 1 desde meados da década de 70, "quando a F1 era perigosa e o sexo seguro, hoje inverteu". Escreve sobre Fórmula 1 às segundas-feiras.

domingo, 21 de outubro de 2007

Você já comeu parkour?

Nem eles levam o Parkour a sério, por que eu levaria? (foto: divulgação)

Por Odisseu Kapyn

Sei que muitas pessoas têm escrito e-mails pedindo para eu avaliar esse ou aquele suposto esporte (mas, curiosamente, talvez por falta de conhecimentos cibernéticos dos leitores, não estou recebendo essas mensagens). Um desses pedidos, já reforçado por alguns colegas meus em uma mesa de bar, se refere ao parkour. Não são todos que conhecem essa modalidade de pronúncia escrota e filosofia bizarra. A palavra, assim como a prática, vem do francês e, portanto, se pronuncia “parcúr” (derivado de “parcours du combattant”, ou “percurso de obstáculo”).

Meu impulso era responder: “ora, mas o parkour é café-com-leite; não dá nem pra se candidatar a ser esporte, não é preciso gastar tempo explicando isso”. Essa minha resposta, devo confessar, também vinha do fato de eu nunca ter visto ninguém praticando parkour. Eu só tinha lido uma matéria na Superinteressante, o suficiente para quando me perguntassem se eu sabia o que era parkour, eu não respondesse “É uma espécie de peixe, né? Nunca comi” ou “É um rival do orkut, se não me engano. Não vou entrar nessa, não”.

Mas eis que finalmente conferi imagens da prática do parkour. Não foi ao vivo, pois é muito difícil encontrar por aí praticantes dessa modalidade (o que reforça a sensação de que não se trata de um esporte). Foi na TV que vi um monte de marmanjo pulando de muros, dando cambalhotas na rua, saltando contra árvores, jogando-se por cima de muretas, saltitando por cima de cilindros de concreto e correndo por avenidas.

Falando assim, não parece muito interessante de se ver por mais de um minuto. E não é mesmo. Mas tinha a Dani Suzuki apresentando o programa (Tribos, do Multishow) e resolvi ver até o fim, pois ela estava tentando algumas “manobras” de parkour (não dá para resistir a uma mocinha bonita saltitando, que o diga Baywatch e as moças da cama elástica no fim de The man show, do canal FX).

É claro que também quis assistir ao programa para ver se rendia um artigo mais minucioso contestando a intenção de o parkour ser um esporte. No entanto, logo de cara, um de seus praticantes já disse que aquilo não era esporte, já que não havia competição. Teve outro sujeito que falou que havia gente que achava que era esporte radical, mas não mostrou muita convicção. Deu para perceber que os caras não se levam a sério. Ainda mais quando um deles falou que o Homem-Aranha é o “ídolo máximo” deles.

É, isso soa tão ridículo quanto um fundista dizer que o The Flash é o ícone dos corredores. Ou um halterofilista dizer que seus colegas têm profunda admiração pelo Hulk. Ou ainda, um praticante de patinação artística se declarar fã do Capitão Gay. Pelo bizarro da menção ao Homem-Aranha, por certa dose de humor involuntário no transcurso do parkour (falhas em escaladas de muro lembram clássicos do desenho animado infantil), acabei nutrindo uma certa simpatia pela modalidade.

Os caras que praticam sabem que aquilo ali não é nada demais, que não é esporte, que não é sério, que é só uma brincadeira, que ninguém os admira a ponto de querer dar-lhes medalhas. A própria Suzuki apareceu depois no site do Multishow dizendo que antes “não via graça nessa coisa de pular murinho”, mas que depois que conheceu a tribo de praticantes, viu que “a parada é muito maneira”. Deve ter sido pela humildade dos “parkuzeiros (?)”, uma espécie de skatistas sem skates e, principalmente, sem marra.

A humildade dos “parkuzistas (?)” só se abala em algumas de suas declarações sobre a filosofia da atividade (“nos livramos da opressão dos muros”) ou quando eles vislumbram na prática uma utilidade maior. Apareceu no programa um guarda municipal dizendo que a corporação planejava treinar com eles, para utilizar as práticas em perseguições pelas ruas. Imaginem se a moda pega: um PM gordo dando cambalhotas e ricocheteando entre paredes enquanto um ladrão de celular foge em linha reta empurrando todos à frente.

Em outro momento, um “parkuísta (?)” lembrou o último filme de James Bond, no qual um personagem dá uma canseira no 007 ao usar o parkour para fugir do agente por vários minutos. Imaginar-se ali naquela ação cinematográfica é como um esgrimista achar que consegue sustentar mais de 10 segundos de luta, como nas coreografias dos filmes de capa-espada. De qualquer forma, não dá para não achar legal uma atividade na qual o praticante diz que sofria preconceito da polícia por acharem que eles estavam fazendo “treinamento pra bandido”.

Odisseu Kapyn acha que o parkour foi determinante para Napoleão perder a guerra. Ganhou fama no Cocadaboa. Hoje, escreve na Revista M e no blog Humor Marrom, e apresenta o Ponto Cômicos, grupo de comédia stand-up em cartaz na Casa da Piada, em Copacabana, às quartas. Faz suas gracinhas aqui aos domingos.

Seleção Bossa Nova

Há gosto e desgosto para tudo. Há mesmo quem não goste de futebol. Mas não há uma coisa: um ser humano na Terra que não goste de música

Por Pedro Ribeiro

Quando João Gilberto lançou o disco 78 Rotações no fim da década de 1950, o Brasil experimentava um novo período histórico, uma reconstrução da identidade nacional.

Que isto é Bossa Nova, que isso é muito natural

Nos Anos Dourados de JK, o país crescia economicamente e surgia a imponente Brasília do Deserto. Na cena cultural, estilo e sonoridade se modernizavam, era a nova bossa de Tom Jobim, Vinícius de Moraes e tantos outros vanguardistas.

No futebol, a bossa era de Pelé e Mané. Se o novo estilo musical reinventava o samba melancólico das rádios, a Seleção fazia o povo esquecer das tristezas passadas. Ambos conquistaram o mundo.

A Bossa continua e comemora seus cinqüenta anos. Virou Patrimônio Cultural esta semana.

Mas o futebol que encantou o mundo, parecia ter esquecido o próprio país. Craques espalhados por todos os lugares. Reconhecidamente os melhores do planeta, mas um time que, apesar de canarinho por tradição, se distanciou do povo, de suas raízes.

A Bossa também é um pouco do mundo. As influências do Jazz americano estão lá presentes. Mas o canto baixinho, a batida cadenciada e o amor, cantado de forma tão brasileira, registram o Made in Brazil.

E o Brasil do futebol não pode ser apenas para gringo ver.

Chega de Saudade, a verdade é que sem ela não pode ser

Nas Eliminatórias, a Seleção voltou ao Brasil, ao Maracanã, Carnegie Hall do futebol.

“Chega de Saudade”, de Tom e Vinícius é considerada um símbolo da Bossa Nova. A música começa triste e, de repente, surgem acordes alegres, capazes de contagiar qualquer um:

Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca

Os abraços apertados e colados ficaram por conta da torcida. O povo, representado por famílias inteiras, fez a festa no Maracanã. Há sete anos, a Seleção não jogava no Rio. Um reencontro com uma vitória por 5 a 0 sobre o Equador merecia ser muito comemorado.

Mas a euforia cultiva exageros.

Foi assim com a música. Após o sucesso da Bossa, foram muitos os que se aventuraram no ritmo novo. Até Juca Chaves cantou Bossa Nova.

No Maracanã, os exageros ficaram por conta da imprensa. “Volta do futebol arte”, “Seleção dá show”. Convenhamos, nenhuma das manchetes foi verdadeira.

O Brasil, na sua lentidão habitual, demorou a se impor diante do fraco Equador. Cabeças-de-área desencontrados em campo, excessivos erros de passes e craques mal aproveitados.

No banco, poucas opções. Não as melhores que temos. Afonso, por exemplo, não pode ser aposta para modificar o panorama de um jogo.

Mas no fundo do peito dos desafinados, também bate um coração

Faltam alternativas eficientes.

O Pato vinha cantando alegremente. Qüen! Qüen!

Quando o coro ensaiava vaias, o Brasil abriu o placar e ampliou. Mas tudo parecia “Samba de uma Nota Só”. A falta de padrão de jogo de sempre. Nota solitária, sem a magnitude da música de Tom Jobim.

Nela, com apenas uma nota, o maestro faz poesia. Já o Brasil é de uma mesmice irritante. Não jogamos coletivamente. Ainda bem que ainda temos craques. Kaká marcou um golaço, o terceiro do jogo. E o Brasil fez o quarto com Elano, jogada iniciada com Robinho e o drible “vai pra lá que eu vou pra cá”, verdadeira bossa do futebol. Se todos fossem iguais a você, Robinho...

Alegria é a melhor coisa que existe

O Brasil completou a goleada por 5 a 0. Mas, sejamos francos, sem nenhuma excelência. Se, para fazer uma samba com beleza, é preciso mesmo um bocado de tristeza, eu agüento os erros até a próxima Copa. Se a Seleção soubesse o que significa ser Brasil verdadeiro em campo...

Ah, se ela soubesse que quando ela passa, o mundo inteirinho se enche de graça

Há quem goste do time de Dunga. Há quem não goste de Bossa Nova. Há gosto e desgosto para tudo.

Mas gostoso mesmo é ver o Maracanã novamente como templo da Seleção. O Maior do Mundo, carioca da gema, viu o nascimento da Bossa e, de vez em quando, entoa suas músicas das arquibancadas. Mas teve uma que ninguém ouviu. Ele cantou baixinho quando a Seleção entrou em campo.

Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar. Ai que bom que isso é, meu Deus. Que frio que me dá o encontro desse olhar

Pedro Ribeiro é Coordenador de Eventos do SporTV, mas às vezes parece um Lobo Bobo, tal qual o personagem cantado por Carlos Lyra. Escreve sobre Esporte e Cultura aos sábados.