segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Bendita chuva

Alonso bate sozinho em Fuji: corrida emocionante (foto: autosport)

Por Otto Jenkel

Se alguém ainda duvidava da genialidade do inglês Lewis Hamilton, o GP do Japão, disputado ontem em Fuji sob forte chuva, tratou de sepultá-la. Tudo indicava que o novato teria dificuldades na pista encharcada, já que sua pior corrida do ano foi justamente o GP da Europa, disputado em condições parecidas. Para Fernando Alonso, o prognóstico era outro. Considerado o melhor piloto do mundo e um mestre em piso molhado, seu favoritismo parecia evidente. Mas tudo acabou se invertendo. Alonso esteve irreconhecível, errando demais, até abandonar a prova - pela primeira vez nesta temporada - após um acidente. Já Lewis esteve soberano, parecendo ser ele o campeão. Não é. Ainda.

Com a vitória obtida em Fuji, o piloto inglês abriu 12 pontos sobre o espanhol, restando apenas duas provas. Em 57 anos de F1, ninguém tirou tamanha diferença em um par de GPs para o fim de um Mundial. Alain Prost, em 1986, foi quem chegou mais perto, ao descontar uma diferença de 11 pontos para o inglês Nigel Mansell. Somente um desastre poderá tirar o troféu de Lewis, e pelo que se viu nesse fim de semana, no Japão, o título estará em muitas boas mãos. O show, aliás, começou no treino.

Foi um lance que pouca gente percebeu, mas que está reservado para os gênios. O inglês estava apenas com o 3º melhor tempo, quando iniciou a volta derradeira do treino. Ao entrar na reta dos boxes, seu tempo era um pouco acima do então pole, Alonso. No meio da reta, ele mudou a trajetória, pegou o vácuo do carro que estava à frente, cortou para à esquerda, passou raspando por este carro, e cruzou a linha de chegada, superando o espanhol por 70 milésimos. Um assombro.

Agora, o inglês pode liquidar a fatura já no próximo fim de semana, na China. Alonso tem que chegar na frente de Hamilton de qualquer maneira, sendo que tem também que descontar pelo menos dois pontos. Para muitos, que diziam que esse era um dos campeonatos mais equilibrados da história da F1, periga a festa terminar antes da última prova, no Brasil, em 21 de outubro.

A Ferrari, definitivamente, não se dá bem em Fuji. Em 1976, quando Niki Lauda e James Hunt disputavam o título, a equipe assistiu, atônita, o austríaco abandonar a prova na 1ª volta, em protesto pelas más condições da pista inundada, semelhante, inclusive, a de ontem. O título caiu no colo de Hunt. Já em 1977, um acidente com a Ferrari de Gilles Villeneuve e o Tyrrell de Ronnie Peterson, fez o carro do canadense voar sobre o público, matando dois espectadores.

Desta vez, ninguém entendeu como a direção da Ferrari permitiu que os carros largassem com os pneus intermediários numa pista encharcada. Parece que a possibilidade da vitória de número 200 na história da F1 andou perturbando os italianos. Tentou-se o impossível. Agora só um milagre dará o título aos "vermelhos". Raikkonen terá que descontar 17 pontos em 20 possíveis. Felipe está fora. Mas dele falaremos depois.

Pega inesquecível



A chuva é, na verdade, a grande atração da F1. É diversão na certa, e ontem não fugiu a regra. O que não dá para entender é como a FIA permite que durante 30 insuportáveis minutos os carros passeiem atrás de um pace-car. Quando a prova começou de verdade, na volta 18 das 67 programadas, a chuva era pior do que no início. Não, não dá para entender. Nem com boa vontade.

Curioso foi assistir ao choque de uma Red Bull, com a sua subsidiária, a Toro Rosso, quando seus pilotos, Mark Webber e Sebastian Vettel , caminhavam para um inédito pódio duplo. E pior, com um pace-car na pista. Aliás, só a Globo chama essas equipes de RBR e STR, e o Galvão ainda tem coragem de dizer que tá cheio de equipes com siglas na F-1.

Por fim vamos ao lance mais espetacular da prova e que nos remete, impreterivelmente, a famosa Batalha de Dijon, um duelo travado entre Gilles Villeneuve e Rene Arnoux no GP da França de 1979. Desta vez, os protagonistas foram Felipe Massa e Robert Kubica, que numa disputa pelo sexto lugar, andaram tocando rodas na última volta da corrida, com um detalhe adicional que só aumenta o feito dos pilotos : a chuva.

Foi uma delícia assistir ao violento combate. Foram sete trocas de posições em apenas uma volta. Os pilotos não estavam dispostos a ceder nada. Era vencer ou vencer. E deu Felipe, como poderia ter dado Kubica. No final de uma disputa como essa não há perdedor. Como haveria? Seria tão bom se existissem duelos como esse com mais frequência. Será que estamos sempre dependentes da chuva? Pelo que vimos nos GPs desta temporada, não resta dúvida. No molhado, o piloto é obrigado a frear bem antes, tornando as ultrapassagens possíveis. Você já imaginou uma disputa como essa, na F1 de hoje, em pista seca?

Pois foi isso que aconteceu em 1979, quando Villeneuve (Ferrari) e Arnoux (Renault) esqueceram que estavam dentro de um bólido que atinge 300km/h e se engalfinharam durante duas voltas no mais famoso duelo da história da F1. Para quem nunca viu, e não sabe quem foi o vencedor, vale a pena ver essa disputa no vídeo do Youtube. Um detalhe: essa disputa valeu um 2º lugar. O ganhador da prova, o francês Jean Pierre Jabouille, acabou esquecido no tempo. Já o vencedor do duelo...

Otto Jenkel trabalhou no FOCA TV, cobrindo o GP do Brasil, quando a prova era disputada no Rio. Acompanha Fórmula 1 desde meados da década de 70, "quando a F1 era perigosa e o sexo seguro, hoje inverteu". Escreve sobre Fórmula 1 às segundas-feiras.

3 comentários:

Anônimo disse...

Fui ver a corrida com amigos em um bar com a certeza de que ia ser um corridaço por causa da chuva... o pega do massa foi de arrepiar, e no final o bar inteiro comemorou como um gol. a f1 pós-Schumacher voltou a ser emocionante, e isso não tem preço...

franklinstorry disse...

Realmente, só com chuva mesmo pra ter emoção. E certos acontecimentos neste GP fizeram sua festa: chuva e ultrapassagem do Massa. Excelente texto. Revi no youtube Hungria 86. ES-PE-TA-CU-LAR. Vai ao GP Brasil? depois nos falamos. TEXTO? Parabéns, os deuses da F-1 estão te ajudando...

Anônimo disse...

Otto,

Mais uma vez parabéns ! A coluna está cada vez melhor.

Abraços,
Bruno