quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O chato campeão chato

O São Paulo, de Diego Tardelli, é a bola da vez, mas falta sal (foto: globoesporte.com)

Por Emiliano Tolivia

Apenas para ficar com os cariocas, vamos lembrar os belíssimos times do Vasco de 1997 (Edmundo e Evair) e 2000 (Juninho Pernambucano chegando ao auge e Romário. Apesar do escândalo da final...); o Botafogo de 95, quando Donizete bagunçava, e Túlio fazia gol de todas as formas; o aguerrido Flamengo de 92, comandado magistralmente por Júnior; o Fluminense taticamente perfeito e mortal de Parreira, Assis, Washington e Romerito.

Querem sair do Rio? Para não voltar muito no tempo, recordemos então o Palmeiras/Parmalat, o Grêmio de Paulo Nunes e Jardel, o Corinthians de Marcelinho Carioca e Vampeta, o Cruzeiro de Alex e Luxemburgo, o Santos de Diego e Robinho (e, posteriormente, apenas Robinho). Chega, né?

Pois esses dois parágrafos de reminiscências servem para mostrar campeões brasileiros que deram gosto de ver jogar. Foram, sim, os melhores em tais edições. E o Brasileirão 2007? O São Paulo será o primeiro pentacampeão sem asterisco (por Juca Kfouri), mas que time sem graça! Ao contrário do último ano, na campanha do tetra, o Tricolor paulista faz muito mais do que privilegiar a defesa. O que eles praticam é antijogo mesmo.

Já vinha com essa impressão há algum tempo, confirmada ao ver os virtuais campeões caindo em campo na partida contra o Fluminense, no último sábado, a partir dos 15 minutos do segundo tempo, quando o placar estava empatado por 1 a 1, o resultado final. Organizado taticamente, organizado para defender, organizado para segurar os adversários. É uma falta atrás da outra.

Olha que o Flu, que conta com apenas um jogador de criação no meio-campo – Thiago Neves – tentou atacar. Em vão, até pela linha de frente insípida que possui. Teve dois pênaltis – o segundo, desperdiçado por Gabriel, mal marcado -, mas não soube aproveitar. Ainda perdeu (?) Somália por seis meses, lesionado no joelho. Não é um time com pinta de campeão, mas não perdeu para o São Paulo (no primeiro turno, venceu por 1 a 0 no Morumbi). Por quê? Simplesmente porque também sabe se defender.

Até hoje ninguém consegue me dizer qual é o melhor zagueiro são-paulino. É o Miranda? É o Alex Silva? É o Breno? O melhor é aquele amarreitor-de-jogo-tabajara do Muricy. Ok, o que vale é ser campeão, e não vou discordar desse ponto de vista. Eu comemorei e defendo o Brasil de 1994, até porque havia um craque e um gênio na frente. Não quero aqui dar uma de puritano, longe de mim.

Mas muito me surpreende que comentaristas – e torcedores – que criticam aquela seleção de Parreira, hoje venham exaltar ESSE time do São Paulo. O clube é modelo de organização e se vale muito disso. É inegável. O discutível é que o elenco seja fortíssimo. Ora, se o goleiro reserva disponível é juvenil, a opção para a zaga é o André Dias (André Paraná, rubro-negros, lembram-se?), não existe lateral-direito sobressalente e o meia da hora é o Fernando Gomes (irmão do Carlos Alberto, tricolores...), então é preciso dar mais crédito ao Muricy do que os são-paulinos dão, por mais insuportável que o treinador seja (e, assim como seu esquema, ele também é muito).

E o Rio? O Rio, dos sambas e batucadas, dos malandros e mulatas vai quebrando ano a ano, ficando cada vez mais para trás por conta de estrutura. As épocas de Assis, Júnior, Túlio e Romário ficaram para trás. No talento, dá para levar, embora os pontos corridos tenham dificultado bastante as coisas para os cariocas. Mas os talentos rareiam. Os gritos de “melhor do Rio” denotam um torneio menor e um pensamento medíocre – de todas as resignadas torcidas. O Flu vive às custas de um patrocinador forte, mas até quando? Enfim, para encerrar o lamento carioca, parabéns ao São Paulo, o campeão mais chato de todos os tempos.

***

Como era previsto, os candidatos à presidência do Fluminense usaram a festa das bandeiras para promover suas candidaturas. Do lado de fora, um verdadeiro trio-elétrico berrava um samba de quinta categoria de Roberto Horcades e afirmava contar com apoio das torcidas organizadas do Flu (o que é discutível) e da Legião Tricolor (!), que não tem presidente, diretoria, razão social, nada.

A chapa de Peter Siemsen levou bandeirinhas com seu nome e as misturou, nas cadeiras amarelas, com às da torcida. Desculpem, mas há cheiro de oportunismo no ar. E assim, nesse vale-tudo, esquenta o pleito tricolor. Da mesma forma que fazem os políticos profissionais. Coisa feia...

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E o Botafogo, até onde vai cair? Deu tudo errado contra o Vasco. As bolas na trave de Lucio Flavio no mesmo chute são a prova cabal de que voltou a palavra mais temida pelos alvinegros: azar. E dos brabos. Muita gente chiou quando o Mário Sérgio disse que o time lutaria contra o rebaixamento. Não vou defendê-lo, até porque ele contribuiu muito para isso em sua passagem-relâmpago pelo clube. Mas essa é a verdade. Mais duas rodadas assim e... por ora, deixa pra lá.

Já o Vasco ganhou uma sobrevida e agora volta a pensar em Libertadores novamente. Menos, menos... Foi uma respirada e... só.

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Cadê o Roger? Periga o Romário, aos 40 anos, disputar o Clássico das Multidões, e o Maradoninha ficar fora. Que belo investimento. O que faz o Colace? Em que posição joga Toró? Quando erguerão uma estátua para o Bruno? Os laterais Leonardo Moura e Juan, afinal, são bons ou ruins? Já renovaram com o Fábio Luciano? Feliz 2008, Mengão.

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Momento Carlos Augusto Montenegro da semana:

“Somos um grupo de amadores que está dando certo”
O próprio, dizendo que fica no clube, após anunciar que sairia.

Emiliano Tolivia é melhor que o Eto'o, melhor que o Henry, mas respeita o Pelé. Passou pelo Lance, assessoria de vôlei de praia da CBV e atualmente é subeditor do Globoesporte.com, pelo qual cobriu a Copa 2006. Escreve sobre futebol carioca às terças-feiras.

12 comentários:

Pedro disse...

Gringo, mais uma vez prestigio sua coluna. Tá nervosinho, hein? Rsrsrsrs. Brincadeira, vou falar sério.
O campeonato de pontos corridos realmente não foi "feito" não só para os cariocas, mas para todos aqueles clubes sem ou com pouca estrutura. Considero esse tipo de campeonato chato (logo, o campeão tinha que ser chato também). Ainda prefiro as finais, com todo aquele clima próprio. Não pelo meu time se encaixar melhor num campeonato de formato "mata-mata" (O Tristão Garcia, numa dessas infindáveis entrevistas sobre as chances de cada time, próprias de final de campeonato, disse que "o Flamengo não foi feito para pontos corridos"), mas pela emoção mesmo, por mais que sejam outros clubes na disputa.
Quanto ao Roger... Alguém tinha alguma dúvida? Acho que nem o Kléber Leite.
Se a Débora Secco estivesse me esperando em casa eu também não ia jogar.
Abraços.
Saudações Rubro-Negras.

NOFX-RJ disse...

Mais uma vez: excelente texto.

Odeio blogg, mas você está ajudando bastante para mudar minha opinião sobre o assunto.

Quanto ao campeonato de pontos corridos, falta muito, mas muito para um time do Rio conseguir acabar o Brasileiro em primeiro lugar.

A estrutura dos clubes é risível.

Li um texto sobre a formação da Elite da Elite do Brasileiro, mais ou menos o que ocorre pela Europa.

Cara, estamos caminhando para que se forme DE VEZ uma Elite da Elite, constituída por São Paulo, Santos, Cruzeiro...

E a "Elite" mediana formada pelos demais times grandes (?).

Se esta fórmula for mantida por muito tempo, cara, a tendência é eles se apequenarem cada vez mais e a Elite da Elite se distanciar também.

Você tem dúvida de que o Bahia, se não subir neste ano para a segunda, acabará???

E quando digo acabará, digo no sentindo de que perderá e muito espaço dentro do seu Estado. O Vitória, com a boa campanha na segundona, acabará "pescando" mais torcedores do que o rival com o passar dos anos e por aí vai.

Terá que contar com a sorte de montar um time competitivo um ano e tentar a sorte nele.

Dinheiro não entrando, pessoas deixando de torcer...

Novo América?

Acho que os times deveriam, sim, modificar essa fórmula de disputa.

Tá bom, a atual fórmula consagra o "verdadeiro" campeão. Aquele que foi mais regular durante o campeonato todo.

Por outro lado, é sadio para o esporte que cada ano um seja campeão.

Esse monopólio acabará com o campeonato que, ainda, é TOTALMENTE imprevisível, tendo mais de 10 times no início com chances de chegar ao título.

No sistema mata-mata, acredito que TODOS tenham, exceto os times recém-chegados da segundona (tirando os clubes grandes (?) que por lá andam).

É por aí.

S. T.,

Leo

Emiliano Tolivia disse...

Fala, Pedrão!
Eu também sou a favor das finais. E sou obrigado a concordar com o RMP, quando ele diz que esse modelo também é justo e cita o exemplo de que o Santos, em 2003, foi o oitavo classificado na fase final. o Flamengo realmente perde muito, assim como os times que conseguem lotar seus estádios (não são todos). Os paulistas estão levando essa com corpo de vantagem, é fato.
Em relação ao Roger, você está certíssimo!!! rsrsrs

Abração!

Emiliano Tolivia disse...

Fala, Leo! Você é amigo... rs

Premiar o mais regular é um ponto de vista, mas como disse acima, o campeão no mata-mata também é um legítimo campeão. O campeão do mundo é escolhido em apenas um jogo! Deixo a justiça no futebol para o STJD (aham...). Concordo com vc em relação à elite do futebol. O legal do Brasileirão, e que nem na Argetina conseguem entender, é que o campeonato começa com uns 12 candidatos ao título. Ou começava. Você tem razão. Quem naõ correr agora para ficar nessa "elite", corre o risco de virar o Juventude, o Paraná de hoje. Por mais peso que tenha.

Abração!

Anônimo disse...

Fiquei muito triste por ter descoberto há poucas rodadas que o São Paulo não merece o titulo de "campeão brasileiro 2007". Não pelo fato em si, mas sim por ter sido tão tarde... O São Paulo não joga futebol! Atrasa o espetaculo! Acho legal o futebol ser organizado... mas...a emoção não pode ser jogada pra escanteio!!! é por isso q este esporte é um dos mais populares do mundo! Acho certissima a frase: "Se o futebol tem q ser justo, que vá para o tribunal!" A paixão pelo futebol é mt grande...e não pode ser superada pela razão... é por isso que falo ao Leo que o Bahia não vai acabar tão cedo...
Lila

Emiliano Tolivia disse...

E aí, Lila!
É... às vezes nem pela tevê vc percebe como eles amarram o jogo. É ao vivo que dá pra perceber bem. Incrível!
O futebol é o esporte mais popular do mundo. E o mais espetacular de todos também, apesar de tudo.
E também acho que o Bahia não cai.

Bjs!

Pedro disse...

Gringo, vou aproveitar o intervalo do jogo do Brasil pra fazer uma sugestão do "Momento Carlos Augusto Montenegro da Semana":

"É melhor a gente ir com calma porque senão vamos cansar. O campo é muito grande".
Robinho, no intervalo do jogo da seleção contra o Equador, sobre o campo do Maraca.

Obs: Duas das desculpas usadas contra a Colômbia não foram as pequenas dimensões do campo e a altitude? Vai entender...

Emiliano Tolivia disse...

hahaha
Pedro... desculpa faz parte do futebol, não tem jeito! Engraçado que no segundo tempo, quando sobrou espaço pra golear, ninguém reclamou das dimensões do campo.
É isso aí: vai entender!!!
Valeu!

Rafael disse...

Fala Emiliano!
Tô de volta na area. tentando estabelecer contato. E parece que a galera carioca ta meio chateada com os pontos corridos. Sera que esses pontos corridos vao transformar o CB num verdadeiro campeonato europeu. Quero dizer...estilo.... dentro de 10 anos o Sao Paulo tera 8 titulos, o cruzeiro 5 e o Palmeiras 6. Ou dentro de 20 anos o Sao Paulo tera 15 titulos, o Cruzeiro 10 e o Palmeiras tb 10. Ou sera que num milagre caido do céu os clubes cariocas se organizar?
Grande abraço,
da França,
Rafa

Hugo disse...

Grande Emiliano! Saudades e orgulho de te ver escrevendo assim. Muito racional ... excelênte!

Parabéns meu camarada!

E para falar em clubes cariocas, torcedores ... acho que ainda abre uma brecha pra torcida do flamengo que gritou Obina para Dunga ... afinal, foi no templo do nosso futebol.

Abraços

Emiliano Tolivia disse...

Fala, Rafa!!!
Vê se aparece no MSN, pô!
Olha, como o Lèo comentou aí em cima, a tendência é essa sim. Só não coloco o Palmeiras no bolo. Embora seja mais fácil eles se organizarem a qualquer carioca. Diria que será São Paulo, Santos, Cruzeiro e talvez um dos gaúchos. O Fluminense parece que está organizado, mas só parece. Tem um patrocinador forte, mas a saúde financeira do clube é de um doente terminal. Os outros clubes idem, infelizmente. Ainda acredito que pode haver uma reviravolta, mas periga que os cariocas estejam bem para trás em número de títulos quando isso vier a acontecer. Eu não gosto dos pontos corridos, a maioria no Rio também não. Mas é verdade que o pessoal do São Paulo não reclama nem um pouco...

Abração!

Emiliano Tolivia disse...

Fala, Hugo!
Quanto tempo, rapaz!
Pois é. Eu estava no Maracanã e tive que aturar os gritos de Obina, Obina, Obina. Bom, carioca gosta de uma boa piada, né não...
Pior foi ouvir a torcida vaiar o Kaká no início do lance que resultou no gol do Ronaldinho Gaúcho. Mas torcida de jogo do Brasil é irritante demais, normal. Pelo menos não tem violência.

Vê se aparece
Abração!