quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Na dúvida, God save The Queen

Hamilton é guinchado e colocado de volta na pista em Nurburgring (foto: Autosport)

Por Otto Jenkel

No meio das turbulências do escândalo da espionagem da Mclaren e do atrito entre Lewis Hamilton e Fernando Alonso, um fato ocorrido no GP da Europa passou quase despercebido. Após uma tromba d’água desabar sobre o circuito, seis pilotos atolaram na caixa de brita: Button, Speed, Liuzzi, Sutil, Rosberg e Hamilton. Os cinco primeiros abandonaram seus carros, mas o inglês continuou no Mclaren, impassível. Quando o reboque guinchou o carro de Hamilton e o colocou de volta à pista, foi vista uma cena inédita em 57 anos de F1. Um carro é levantado pelo guincho com o piloto dentro e este volta à corrida como se nada tivesse acontecido. Posteriormente, a FIA declarou que isso não seria mais permitido, mas uma pergunta ficou no ar: será que se Hamilton terminasse esta prova na zona dos pontos a FIA tomaria essa medida?

Um fato parecido aconteceu em 1976, quando, curiosamente, também Ferrari, com Niki Lauda, e Mclaren, com James Hunt, disputavam o título mundial. Por ocasião do GP da Inglaterra, um acidente na largada destruiu o Mclaren do inglês Hunt. A largada foi cancelada e, na época, não era permitida a troca de carro. A torcida inglesa pressionou jogando latas de cerveja, entre outros objetos, na pista, o que fez os organizadores reverem o resultado, permitindo a Hunt largar com o carro reserva, e ganhar a prova.

Somente dois meses depois, a FIA tirou a vitória de Hunt. Em contra-partida, devolveu os pontos que o inglês havia perdido ao ganhar o GP da Espanha com um carro fora do regulamento. Essa “compensação” acabaria por decidir o campeonato a favor do inglês, que ganharia o título sobre Lauda com um mísero ponto de vantagem.

O episódio da largada do GP inglês de 1976 é tão absurdo como o do guincho de 2007. Imagine se isso fosse permitido, todo piloto se veria no direito de jamais abandonar o carro até que o reboque o colocasse de volta na pista. Seria o caos total. Como pode a FIA, tão zelosa com segurança, cogitar tal possibilidade? O fato de Hamilton não ter pontuado felizmente facilitou que a exceção virasse regra. O que ninguém poderia prever é que a FIA, já na corrida seguinte, tomaria uma outra decisão polêmica, e que, assim como em 1976, poderá até vir a decidir o campeonato.

Cabe aqui um parêntese. A Grã Bretanha dominou a F1 no final dos anos 50 até o início dos 70 com nove títulos de pilotos em 16 anos. Mas, nos 33 anos seguintes, além do discutido título de Hunt, vieram apenas mais dois: o de Mansell em 1992, e o de Damon Hill em 1996. Nenhum deles foi considerado o melhor piloto de sua Era, muito pelo contrário.

Hunt foi suplantado por Lauda. Mansell perdeu três títulos para Prost, Piquet e Senna, e só foi campeão quando teve um carro muito superior aos demais, assim como Damon Hill que viveu sempre na sombra de Michael Schumacher. Houve sempre uma proteção e uma boa vontade com os pilotos ingleses, afinal é da Inglaterra que vem a maioria das equipes, dos jornalistas e até dos dirigentes da F1. Fecha o parêntese.

Voltemos a 2007: a FIA, ao punir Alonso na Hungria, pode ter decidido o título a favor de Hamilton. Quando o espanhol ficou parado nos boxes, prejudicando o inglês que não conseguiu sair a tempo, a opinião geral foi que Alonso tinha sido antiético. Mas, logo depois, todos souberam que a própria Mclaren culpava o inglês por não ter obedecido a um acordo pré-estabelecido entre os pilotos e a equipe. Ou a FIA não punia ninguém, ou punia ambos, mas acabou tomando uma decisão que ainda vai dar o que falar.

O próprio Hamilton, esperto, disse que todos viram o que aconteceu, ou seja, que o culpado foi Alonso. Após o asturiano ser punido, o inglês manteve o discurso. Só na segunda feira, quando o “circo” da F1 estava sendo desmontado, ele admitiu o seu erro e pediu desculpas à equipe. O objetivo, afinal, já tinha sido alcançado.

Alonso também deve estar sentindo na pele o que Piquet passou em 1986, quando chegou a Williams e virou companheiro de Mansell, até então considerado um piloto rápido, mas que só tinha obtido duas vitórias em cinco anos de F1. A chegada do brasileiro, então bicampeão do mundo, e um gênio em acerto de carros, ajudou a equipe a dominar a temporada, mas, ao mesmo tempo, criou problemas adicionais, porque Mansell, impulsionado pela mídia britânica, se viu no direito de tentar almejar o título.

Piquet, que até então era idolatrado pela imprensa inglesa por te sido campeão inglês de F-3, passou a ser o inimigo público número 1, papel que cabe hoje a Alonso. A divisão na Williams acabou dando o título de 1986 para a Mclaren, com Alain Prost. No ano seguinte, Piquet seria campeão, mas deixaria a equipe. Quanto tempo Alonso resistirá?

Ao contrário dos últimos pilotos ingleses, Lewis Hamilton pode até vir a ser o melhor de sua época, tem até os atributos para isso, mas seria uma pena que essa Era se iniciasse com decisões extra-pista em que, na dúvida, a FIA favoreça sempre o piloto de Vossa Majestade.

Otto Jenkel trabalhou no FOCA TV, cobrindo o GP do Brasil, quando a prova era disputada no Rio. Acompanha Fórmula 1 desde meados da década de 70, "quando a F1 era perigosa e o sexo seguro, hoje inverteu". Escreve para o Por Esporte como convidado.

2 comentários:

Rodrigo disse...

Ótima coluna ! É difícil achar algo muito bem escrito e com conteúdo sobre F1 no Brasil. Sobre o assunto da coluna é como dizem: A história se repete de tempos em tempos.

Anônimo disse...

Uma coisa que me incomoda nesse protecionismo britanico da FIA, apesar de ter sede na Franca, eh que, cada vez mais, sinto que eh inutil torcer.

Pra que me dar ao trabalho de acordar cedo, aturar o Galvao Bueno falando asneiras, o Burti tendo que corrigir as traducoes idiotas que o Galvao faz sobre os "radios" das equipes, esperar uma vitoria do Massa, se, em qualquer coisa que necessite de um julgamento da FIA, a McLaren, ou o Hamilton, serao os favorecidos?

Parabens pela coluna, Otto!

Ficou show!

Fernando